Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

João XXIII: o que os judeus me ensinaram

Maria Clara Bingemer*

Corria o ano de 1993, e eu trabalhava dividindo meu tempo entre a PUC-Rio e o Centro de Investigação e Ação Social (Cias), também chamado Centro João XXIII, da Companhia de Jesus, na Rua Bambina 115. Lá, coordenava o projeto chamado Diálogo entre Fé e Cultura.         

Um dia veio ver-me um senhor judeu, de nacionalidade argentina, que morava em São Paulo.  Perguntou-me se não íamos fazer nada para comemorar a data tão significativa que acontecia naquele ano.  Delicadamente, mostrei-lhe que não sabia do que falava e perguntei-lhe de que se tratava.  Ele esclareceu: fazia 30 anos da morte de João XXIII.

Entre envergonhada e animada, dispus-me a organizar junto com ele o que fosse preciso a fim de preparar uma bela comemoração pelo trigésimo aniversário da morte do papa João.  Assim fizemos. 

O evento reuniu umas 100 pessoas no auditório da Rua Bambina.  Estavam presentes judeus, cristãos e pessoas não ligadas a nenhuma instituição religiosa.  A conferência de abertura foi dada pelo co-organizador que — surpreendendo toda a audiência ao colocar como fundo musical a Ave Maria  de Gounod — narrou sua experiência com o papa João, que chamou durante todo o tempo de “Juan el Bueno”. 

Contou o que foi sua infância de menino judeu na Argentina, em uma comunidade forte e numerosa, mas em um país maciçamente católico.  Sentia a discriminação, a rejeição, muitas vezes pesar sobre seus ombros e sua vida. Sofria quando, em alguma cerimônia católica da qual devia participar, ouvia a expressão “pérfidos judeus” ser proclamada no templo e receber o amém da assembleia. Até que apareceu o papa João, “Juan el Bueno”. 

O orador seguia, cada vez mais emocionado, narrando os feitos pró-judaicos do Papa Bom. Durante a Segunda Guerra Mundial, sediado na Turquia neutra, conseguiu salvar muitos judeus perseguidos pelo nazismo com a distribuição gratuita de permissões de trânsito fornecidas pela Delegação Apostólica, certificados de batismo temporários e documentos de imigração para a Palestina, arranjados por organizações judaicas. 

O que mais edificava o orador era o respeito de “Juan el Bueno” pelos judeus. Não cogitou convertê-los à força. Diante da ameaça de extermínio, sentiu-se obrigado a defender suas vidas, ainda que isso implicasse uma interpretação não tão usual do Direito Canônico. 

Ao mencionar que o papa João retirou da liturgia da Sexta-Feira Santa as duras expressões relativas aos judeus e inaugurou uma nova era de relacionamento e diálogo judaico-católico, o orador mostrava-se emocionado.  “Juan el Bueno” influenciou a composição da declaração Nostra aetate, do Concílio Vaticano II, aprovada apenas após sua morte e que é peça chave no diálogo com os judeus.  Neste documento, a Igreja rejeita definitivamente as acusações de deicídio ao povo judaico e condena o antissemitismo. 

Quando terminou sua fala, o orador estava em lágrimas, e boa parte da audiência também.  Alguns de nós — católicos — conheciam um pouco ou talvez apenas parte deste lado do Bom Papa João. Mas certamente nunca havíamos escutado um depoimento como esse de um judeu que viu transformada sua visão e concepção do cristianismo e da Igreja Católica por uma figura como a do papa João. 

Ele terminou recitando uma poesia de sua autoria, que compôs ainda menino adolescente em Buenos Aires, quando chegou a notícia da morte de João XXIII.  Na singeleza da linguagem infantil e na autêntica emoção que ela transmitia, cada vez que repetia o refrão: “Murió Juan el Bueno”. A tristeza do menino judeu argentino era igualmente à de milhões que se sentiram órfãos de alguém que se comportou para com eles como um pai.  Um homem bom, que os tratou com amor e caridade, não se importando que sua cultura e sua religião fossem outras, no respeito à diferença e na integração da mesma.   

Hoje, a Igreja Católica vive a alegria de contar “Juan el Bueno” entre seus santos canonizados.  Para todos os católicos isso implica, além de uma honra, um compromisso: edificar uma comunidade eclesial aberta às diferenças, sem discriminações ou preconceitos, onde todo ser humano possa encontrar a acolhida de uma casa e a presença de irmãos, além de uma instancia de diálogo.  A perene paternidade do Bom Papa João será sempre inspiradora nesse sentido. 

*Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc-rio.br

Tags: argentino, cias, compromisso, fé e cultura, honra, judeu, puc-rio

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