Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Dezembro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Gabo, Mercedes e o realismo mágico

Maria Clara Bingemer*

Depois de 87 anos de vida, de tantas obras de puro gênio, de uma imaginação fértil e poderosa que criava fascinantes mundos imaginários, de um realismo mágico que, tal como o nome diz, introduzia magia na realidade sofrida, oprimida e cinzenta dos povos latino-americanos, morreu Gabo.  Gabriel García Márquez, o Gabo da Pátria Grande, fechou os olhos e voltou a abri-los em outra dimensão. 

Nascido em Aracataca, Colômbia, filho de um farmacêutico que após seu nascimento mudou-se para Barranquilla, Gabo foi praticamente criado pelos avós maternos, doña Tranquilina Iguarán e o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía.  Destes, sobretudo do avô veterano da Guerra dos Mil Dias, herdou  o talento de contar histórias que, quando menino, inteligente e sensível, o encantavam. Ambos exerceram forte influência sobre a criativa imaginação do futuro autor do romance Cem anos de solidão, que revolucionaria a literatura latino americana.

Em 1958, Gabo casou-se com Mercedes Barcha, uma morena de olhos misteriosos e atitude discreta, que seria seu amor, sua cúmplice, sua eterna companheira e a condição de possibilidade de sua carreira de escritor. Em 1965, Gabo queria poder assegurar tranquilidade durante seis meses para escrever um romance que o obcecava há mais de quinze anos.  Era a história de uma casa onde transcorreria a história de todas as gerações da família do coronel Blenda.  Empenhou o carro e deu o dinheiro a Mercedes, garantindo-lhe que seriam seis meses e nada mais.

O dinheiro acabou, e Gabo não havia encerrado o romance.  Mercedes nada lhe disse.  Continuou provendo a casa de comida e a mesa do escritor de papel e material para escrever. Valeu a pena.  O produto final dos malabarismos amorosos de Mercedes foi nada menos que Cem anos de solidão, obra maior do escritor colombiano, publicada em primeira edição em 1967 em Buenos Aires, Argentina, pela editorial Euramericana.

Cem anos mudou a vida de Gabo e a de Mercedes.  Depois dessa obra, veio a fama, nacional e internacional, o Prêmio Nobel de Literatura, as múltiplas traduções em várias línguas.  O romance de García Márquez passou a ser considerado uma referência na literatura hispânica, próximo de Dom Quixote de la Mancha e outros.

O realismo mágico que Gabo inaugurou e que depois de Cem anos aparece igualmente em outras obras encarna a alma da Pátria Grande que é a América Latina.  Ali estão presentes a pobreza, a opressão, a dureza da vida, a dor de viver, mas também a fantasia, a criatividade, a capacidade de celebrar e fazer festa, o poder de inventar mundos e personagens que povoam o cotidiano que se faz brilhante e fascinante, e sai de sua mediocridade cinza e sufocante.

Assim é que a personagem de Úrsula, inspirada em sua avó Tranquilina – Mina, como ele carinhosamente a chamava – enche e povoa as páginas de Cem anos de solidão de augúrios, crenças, espíritos e profecias.  Dona Mina transitava com tanta naturalidade entre a realidade, a imaginação e a fantasia, contando ao neto histórias fantásticas como se fossem as mais concretas verdades, que o marcou para sempre.  A vida difícil dos avós, que lutavam para sobreviver, mas sabiam encantar os ouvidos infantis com contos extraordinários e para quem o extraordinário se revelava ordinário, ressuscitando-o da obscuridade em que corria o perigo de cair, foi uma influência decisiva para Gabo.

A imaginação encantada de Gabo, no entanto, não o impedia de enxergar  o lado sombrio da realidade.  E por suas posições políticas conheceu não poucas dificuldades, sendo acusado de subversão.  Por isso, foi incompreendido e perseguido em seu país, tendo inclusive que exilar-se no México, onde morou até morrer.  Por muito tempo lhe foi negado o visto para entrar nos Estados Unidos, até que o presidente Bill Clinton – seu leitor e admirador – anulou a proibição.

Em toda essa vida longa, aventureira, cheia de penas e glórias, Mercedes esteve a seu lado, trazendo a concretude para a vida deste homem imaginativo genial e provendo para que nada lhe faltasse, a fim de que pudesse criar.  Mas Gabo tinha também outro cúmplice que lhe foi e continua sendo fiel para além de sua morte: o povo latino-americano. Reconhecendo-se retratado e representado em suas obras, este povo o amou, o aplaudiu e leu suas obras com encanto e entusiasmo.  Encontrou nele inspiração e fôlego para seu duro cotidiano.

Chama a atenção uma emocionante foto que aparece no portal G1 quando faz a cobertura dos funerais de Gabo.  Um homem do povo, de mãos calosas e gastas pelo trabalho diário, pele curtida pelo sol, visivelmente emocionado, carrega em um dos braços uma criança.  Na outra mão, bem visível à lente do fotógrafo, um exemplar gasto, usado, lido e relido de Cem anos de solidão, da Editorial Sudamericana, de Buenos Aires, 1967. 

O povo lia, lê e lerá  Gabo.  E emocionado acompanhou sua viúva, seus filhos e netos ao longo do funeral no qual suas cinzas foram solenemente carregadas por Mercedes. Aquele que povoou sua imaginação de encanto agora continua presente em sua memória e saudade.  Gabo viveu sua vida e narrou-a de mil maneiras. Seus leitores continuarão esse realista e mágico relato.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco), - agape@puc- rio.br  

Tags: fértil, gênio, imaginação, mágico, Obras, realismo, vida

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