Jornal do Brasil

Sábado, 1 de Novembro de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Vivendo a Quaresma em sintonia com o real

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Após os excessos de Momo, a Igreja começa hoje o tempo litúrgico da Quaresma.  Serão 40 dias nos quais os cristãos serão convidados a buscar uma conversão e maior aproximação com Jesus Cristo através dos meios espirituais que a comunidade eclesial põe à sua disposição.

Conversão não é apenas, nem principalmente, mudança de religião.  O judaísmo identifica dois tipos: a teschuva,  uma conversão interna, ou seja, permanecendo dentro da religião, mas aprofundando no sentido de pertença à mesma.  A palavra tem raiz no verbo “voltar”, “retornar”.  Ou seja, voltar a Deus, ao primeiro amor, à vida espiritual e caritativa, apressando a vinda do Messias.

A metanoia cristã não está distante deste significado.  Pela conversão somos chamados a voltar, a retornar e retomar o caminho, reencontrar as fontes que nos desalteram e refrescam do cansaço e da sede, recuperar e resgatar os gestos e as palavras amorosas com o calor dos primeiros tempos.

Não se trata de saudosismo, mas de um profundo realismo.  E retomar o caminho, um caminho interrompido pelo pecado em todas as suas formas, para reencontrar o frescor da inspiração e do compromisso, cheio de entusiasmo e ardor, no seio da realidade de hoje.  Por isso, a conversão que nos pede a Quaresma não pode ser desvinculada da realidade onde estamos inseridos.

Cabe, portanto, a instigante pergunta: o que significa converter-se  no Brasil de hoje, no mundo de hoje? Em primeiro lugar, creio que significa a consciência de viver em um país com muitos recursos mas ainda muita pobreza.  Assim sendo, implica deixar de lado ou pelo menos relativizar as muitas futilidades e superfluidades que vamos acumulando e crendo tão necessárias e escolhendo uma vida de maior simplicidade, austeridade, solidariedade com os que nada ou pouco têm. A solidariedade e o serviço aos pobres significa algo muito sério e uma parte alegre do compromisso cristão .

Esta Quaresma começa sob o signo da violência em escala não apenas nacional mas mundial.  Desde junho passado vivemos a importante e altamente positiva etapa das manifestações de rua em nosso país. No entanto, em meio aos legítimos protestos que alcançaram não poucas vitórias, vemos a violência acontecendo como subproduto dos interesses que se mesclam à sadia participação política.  E, em termos mundiais, olhamos a mídia e vemos a violência tomando conta de pontos estratégicos do Hemisfério Norte, como a Ucrânia.

A conversão que nos pede esta Quaresma solicita que, como Igreja, sejamos uma comunidade de paz, que possa fazer concretos sinais de paz. Decidir-se pela paz e pela não violência restaurativa, fruto da justiça do mesmo nome, e algo que deve começar em nosso foro íntimo para transbordar na convivência e na coexistência com outros.  Há luminosas testemunhas na história recente do cristianismo que podem iluminar-nos nessa conversão.  Cito apenas uma: vendo o mosteiro do qual era prior ameaçado cada vez mais de perto por um ataque violento e mortal, o trapista francês de coração argelino Christian de Cherge rezava constantemente, junto com sua comunidade: “Senhor, desarma-me.  Desarma-os!”.   Desarmar-se para que as diferenças sejam incluídas e a convivência possa acontecer superando os conflitos pode ser um bom exercício quaresmal na realidade violenta em que vivemos.

Finalmente, converter-se não é um movimento de autoaperfeiçoamento apenas para satisfazer nosso ego faminto de reconhecimento.  E, sim, um movimento que sempre tem como fim último o serviço.  Converter-se é entrar em si e examinar quais os pontos frágeis que em nosso interior clamam por mudança, por conversão, por transformação.  Mas é sobretudo sair de si, em permanente êxodo em direção ao outro para acolhê-lo, com ele ou ela relacionar-se, dialogar, conviver. E quantos e quantas atravessam diariamente nosso caminho em busca de uma palavra, um olhar, uma orientação, uma pessoa que possa escutar suas aflições.

O papa Francisco nos relembrou em inúmeras ocasiões a necessidade que temos — nós, como Igreja, — de priorizar a cura das feridas, o acolhimento, a suave e alegre proclamação da boa notícia da salvação. Aí está o ponto de chegada da conversão que a Quaresma nos pede: ser alegres e esperançosos mensageiros da Boa Notícia que não elimina a dor ou o sofrimento, mas ajuda e ensina a dar-lhes sentido, a vivê-los com paz e serenidade. 

Para isso, o que importa, o que é primordial é conservar os dois olhos bem abertos e atentos, contemplando Jesus Cristo e seu Evangelho, por um lado, e a realidade que clama por libertação do outro.  Esse olhar aberto em dupla perspectiva nos iluminará sobre o caminho de volta Àquele que é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim de nossas vidas. Ele é o único pelo qual nosso coração suspira.  Voltar a Ele em autêntica conversão é a única atitude que nos salva e nos liberta.  Santa Quaresma para todos!

*Maria Clara Bingemer, teóloga e professora da PUC-Rio,  é autora de 'Deus amor: Graça que habita em nós' (Editora Paulinas), entre outros livros. - wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape

Tags: boa notícia, conversão, excessos, mensageiros, momo, mudança

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