Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Ser mulher em tempos de Francisco

Maria Clara Bingemer*

Para o papa Francisco, a relação com a mulher não está configurada em termos de suspeita, dominação, ou poder. Sabe ele que deve muito às mulheres, que o ampararam  ao longo de toda a sua vida.  E essa gratidão e reconhecimento encontram-se harmoniosamente impregnados em seu ministério e sua teologia. 

O papa aprecia na mulher sua sabedoria concreta, que nasce da experiência profunda e verdadeira porque ancorada e enraizada na realidade.  Nada pode substituir essa experiência, nem toda a ciência do mundo.  Como bispo de Roma, o argentino Jorge Mario Bergoglio, em seus discursos e atitudes, tem deixado transparecer claramente essa confiança e esse carinho que podem resultar em uma grande esperança e abertura de perspectivas, não apenas para as mulheres mas para toda a Igreja. Perguntado sobre a situação da mulher no mundo de hoje, papa Francisco muitas vezes tem se pronunciado favorável a uma valorização maior da mulher na Igreja.  

Quando no avião que o trazia de regresso a Roma depois da viagem ao Rio de Janeiro, declarou que uma Igreja sem as mulheres é como o Colégio Apostólico sem Maria.  Acrescentou e isso nos parece o mais importante que o papel da mulher na Igreja não é somente a maternidade e a família.   É mais forte.  E aí toma precisamente o ícone de Maria como Madonna, a quem a piedade cristã chama de Nossa Senhora; é aquela que ajuda a Igreja a crescer.  E por isso é mais importante que os apóstolos e seu ministério. 

Porém, a grande novidade que diz, a nosso ver, é que  não se pode limitar o papel da mulher na Igreja.  A importância desta afirmação reside no fato de Francisco ir alem do tradicional enquadramento que todos os documentos e pronunciamentos de papas anteriores fazem ao se referir sempre à maternidade ou à vida consagrada.  Assim, transforma a impressão de que não restam outros espaços ou outras possibilidades para a mulher senão essas: o casamento, a família, a maternidade ou a consagração religiosa, passando rapidamente pelo trabalho e a profissão. 

O pontífice diz clara e textualmente que o papel da mulher na Igreja não deve circunscrever-se a ser mãe e/ou trabalhadora.  Não se pode nem se deve limitá-la. Reconhece, porém, que para isso é necessário avançar mais na explicitação deste papel e carisma da mulher.  Daí se pode inferir com justeza e sem forçar os pronunciamentos do pontífice que, quando ele diz que a Igreja é mãe e por isso o papel da mulher é tão importante, não pretende confinar a mulher ao privado do lar.  Ou limitá-la aos tradicionais afazeres domésticos de trocar fraldas, cozinhar, limpar, lavar, passar... para os homens. 

E em seguida exemplifica belissimamente com um fato histórico que não deixa a menor dúvida sobre sua postura aberta frente à mulher: o tão importante papel das mulheres paraguaias na reconstrução do país. Vale recolher as palavras literais de Bergoglio, porque têm um longuíssimo alcance: Para mim, a mulher do Paraguai é a mulher mais gloriosa da América Latina... Após a guerra, ficaram oito mulheres para cada homem, e essas mulheres fizeram uma escolha um pouco difícil: a escolha de ter filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé e a língua. Na Igreja, temos de pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas, mas como mulheres.

Temos aí uma afirmação ousada e bela. O papa legitima e mesmo elogia uma decisão que aparentemente e no fundo entra em choque com a moral tradicional do casamento monogâmico e da concepção e procriação apenas dentro deste.  Admite uma ética circunstancial, onde mulheres, a fim de manter vivos seu país, seu povo, sua cultura, optam por um bem maior que exige ir além das fronteiras da moral católica: ter filhos, mesmo que não dentro da instituição do matrimônio.

Porém, o mais importante e mais novo  de toda a reflexão de Francisco sobre a mulher é sua visão pastoral universal, que percebe o perigo de visões reducionistas sobre as questões da moral sexual em relacao à mulher: “Não podemos seguir insistindo apenas em questões referentes ao aborto, ao matrimônio homossexual, ao uso de anticoncepcionais.  É impossível”, afirmou.

O que o papa quer dizer é que a moral deve ser consequência do kerigma, do primeiro anúncio, proposto com toda simplicidade, fulgor e entusiasmo.  Uma vez que este anúncio tenha chegado ao seu destino, que é o coração humano, todo o  resto é consequência.  Consequências que, ainda que importantes, não manifestam por si só o coração do ensinamento de Jesus.

As mulheres, finalmente, são libertadas pela atitude e as palavras do papa da eterna suspeita de  serem as responsáveis pelo mal e pelo pecado, de terem facilitado sua entrada no mundo e de possuírem uma corporeidade que é sede de perigosa sedução, provocando desvios e erros que perturbam a castidade dos monges e o celibato do clero. Estas coisas não devem ocupar o lugar central da pastoral evangelizadora da Igreja insiste Francisco e, portanto, homens e mulheres são chamados, todos e todas, a entregar suas vidas para que o Evangelho ganhe  mundo e conforte os corações humanos. 

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Ser cristão hoje' (Editora Ave Maria) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - agape@puc- rio.br  http://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br 

Tags: matrimônio, monges, palavras, papa francisco, pecado

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