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Segunda-feira, 23 de Abril de 2018 Fundado em 1891
Marcus Ianoni

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Crise de liderança e Lula

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A crise brasileira é multidimensional. Um de seus componentes é a crise de liderança política, em vários sentidos. Crise da coalizão que sustenta o governo Dilma em termos sociopolíticos e político-institucionais. Crise dos partidos, quase todos eles envolvidos no escândalo da Lava Jato, com vários de seus líderes questionados pelo descrédito popular. Crise presidencial, cuja função requer legitimidade, governabilidade e capacidade de implementação de políticas para se sustentar perante o conjunto do sistema político e da sociedade, sobretudo, como agora, quando esses requisitos são imprescindíveis para se atravessar tempestade em mar agitado, com ondas gigantescas, recessão histórica, envolvimento das forças governistas, embora não só elas, com corrupção, e uma ofensiva golpista dos conservadores, dentro e fora do aparato de Estado, associada a protestos de rua pedindo a deposição da chefe do Executivo.

A crise multidimensional coloca em xeque a liderança de Dilma, de perfil muito mais tecnocrático e insulado que político. O país requer, como nunca, liderança em todos os sentidos mencionados, a começar por um timoneiro que, com mais recursos para se lançar como uma força centrípeta contra a dispersão política, tenha melhores condições de tentar conduzir a grande nau nacional para a superação da crise. Mas, para o bem do Estado Democrático e de Direito, essa nova liderança não poderia resultar de um golpe, a partir de um ambiente político de vulgarização do impeachment, como a revolução liberal-conservadora tenta fazer. Nesses termos, o ingresso de Lula no ministério de Dilma, aventado ao longo da semana passada por ela própria e outras lideranças petistas, é uma alternativa urgida pela conjuntura.

Durante alguns meses, entre fins de 2013 e início de 2014, quando os primeiros grandes protestos de rua já haviam acontecido, políticos e empresários de todos os setores defenderam o “volta, Lula”, alternativa que não foi acionada, pois o ex-presidente não concordou com ela, tendo optado pela candidatura de Dilma à reeleição. Esse fato mostra que, em um primeiro momento, a rejeição das elites econômicas à presidente Dilma não se aplicava a Lula. Obviamente, a situação piorou para o PT, Dilma e Lula, devido à sinergia negativa entre crise econômica, corrupção e insatisfação popular com o governo. No entanto, os discursos de Lula após sua condução coercitiva para interrogatório no dia 4 e o apoio sociopolítico que ele recebeu contra a violência que sofreu do Estado mostram tanto que o ex-presidente continua afiado para a disputa democrática da política competitiva, como que suas bases, a começar pelos sindicatos e movimentos sociais, passando por amplos setores da intelectualidade progressista, funcionários públicos, enfim, são ainda muito sensíveis à sua liderança e vão às ruas no dia 18 contra o impeachment, os abusos policial-jurídicos e a crise econômica, fazendo contraponto de esquerda às ruas da direita. Ou seja, Lula possui um inegável capital político.

Por outro lado, as manifestações do dia 13 mostraram que, nas massas das ruas, está aumentando o contingente de eleitores que rejeitam a corrupção de todos, embora lideranças com influência na sociedade civil, como as corporações midiáticas, e outras situadas no aparato estatal policial-jurídico atuem seletivamente contra o PT. A necessidade de reforma no sistema político, especialmente no fragmentado sistema partidário, e de uma solução negociada para a crise é urgente. A economia é também peça-chave do quebra-cabeças. Considerando que os três principais partidos são PT, PMDB e PSDB, para que o drama brasileiro não vire tragédia, há que se buscar um consenso mínimo entre as principais lideranças dessas legendas partidárias. A entrada de Lula no ministério de Dilma, por exemplo, na Casa Civil, facilitaria muito a construção do caminho para esse consenso.

A solução racional mais rápida e menos dolorosa para o casamento perverso entre crise política e crise econômica seria um acordo de união nacional entre os principais atores políticos e sociais, baseado no respeito ao Estado Democrático de Direito e na primazia das instituições do sistema representativo e demais mecanismos participativos previstos na Constituição Federal. Não é prendendo e condenando Lula, com base em denúncia frágil e politizada, como quer o inconsequente governo dos juízes, que a nação vai reencontrar seu rumo, pelo contrário, é hora de colocar o capital político de uma das maiores lideranças da história desse país a serviço da superação da crise e do clima de ódio que se vê nas ruas. A rota de saída da crise brasileira depende da democracia, e não de medidas de exceção. No atual estágio de organização do campo democrático-popular no Brasil, o oximoro da democracia-autoritária ou restrita, menos ainda o autoritarismo puro, tal qual ocorre nos países de todo o mundo onde há uma forte esquerda partidária, não tem viabilidade, além de ser normativamente inaceitável, sobretudo levando-se em conta que Dilma, apesar de estar implementando uma política econômica de austeridade fiscal e monetária, foi eleita pelas bases do referido espectro ideológico e de seus aliados institucionais no centro político.

Em 28 de janeiro, após longa interrupção de suas atividades, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado por Lula em 2003, reuniu-se e discutiu propostas de enfrentamento da crise, tendo motivado várias lideranças empresariais lá presentes, como os presidentes da Anfavea, Bradesco, Itaú e TAM. No entanto, a postura golpista da pela coalizão da deposição de Dilma, que também quer criminalizar o PT e Lula, tem jogado combustível na chama da crise, ao apostar incansavelmente no quanto pior melhor, o que reduz a efetividade política do enfraquecido governo eleito democraticamente e também impacta negativamente no conjunto do setor privado.

Por outro lado, a convenção do PMDB acaba de adiar para daqui a 30 dias a decisão sobre a permanência ou não na coalizão governista. Não há mais tempo a perder, é hora de tomar uma decisão de impacto. Lula pode ser a peça-chave no complicadíssimo jogo de xadrez da crise. Como argumentou Aristóteles, o homem é um animal social e Lula é um exemplar raro dessa espécie de ser político. Mas não o único, obviamente. Em 1993, o país estava imerso em imensa crise, que durava mais de uma década. Em maio daquele ano, Fernando Henrique Cardoso (FHC) ingressou na pasta da Fazenda, após reforma ministerial de Itamar Franco. Como ministro, conseguiu estruturar a estratégia e os recursos humanos para formular e implementar o plano de estabilização que lhe rendeu a vitória nas eleições de 1994 e abriu o caminho para as demais reformas neoliberais, inclusive para a reeleição, em 1998. Apesar do autor dessas linhas discordar das políticas radicalmente orientadas para o mercado, é inegável o papel de liderança exercido então por FHC, em meio a uma crise multidimensional, inflacionária, de crescimento, de Estado, de hegemonia, ideológica e de governabilidade. A crise das políticas neoliberais e a vitória do PT em 2002 deu vez ao social-desenvolvimentismo, que avançou em Lula 1 e Lula 2, enfrentou dificuldades em Dilma 1 e sumiu do mapa em Dilma 2 enquanto norte das políticas públicas do governo federal. Há novamente uma crise nos rumos do Estado no Brasil, pontuada pela disputa entre os dois grandes projetos da era pós-estabilização monetária. Devido à ruptura da coalizão social-desenvolvimentista, Dilma implementa a política que foi derrotada nas urnas. Mesmo assim, os liberal-conservadores querem destruir o PT, que reage contra essa ofensiva de direita. Todo esse quid pro quo evoca direção política. Sem liderança democrática, não há saída. Concordo com Leonardo Boff, que, em carta a Lula, pediu seu ingresso no ministério. Lula lá, já! 

* Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador das relações entre Política e Economia e Visiting Researche Associate da Universidade de Oxford



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