Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

Marcus Ianoni

Lula, liderança política

Marcus Ianoni

Dois meses após ter concedido a primeira grande entrevista depois de um longo período de relativo afastamento da imprensa nacional na condição de entrevistado, o ex-presidente Lula, na semana passada, novamente colocou-se perante jornalistas para responder perguntas, mas desta vez em um encontro que durou mais de três horas e os entrevistadores foram vários blogueiros da imprensa alternativa, com perfil mais de esquerda. Entre as evidências mais fortes que uma análise das respostas de Lula propicia, destaca-se, novamente, tal como feito nessa coluna em novembro, que abordou a entrevista anterior, a sua qualidade de liderança política.

A própria entrevista, concedida no Instituto Lula para a imprensa aliada, já é uma iniciativa política. Ao invés de ficar restrito à condição de vidraça, alvo de pedradas e submetido à pauta imposta pelo adversário, o ex-presidente, atento à delicada conjuntura em que o país, o governo Dilma, ele próprio e seu partido estão inseridos, partiu para a ofensiva. Dois elementos básicos de uma liderança política, que pode ser um líder individual, uma organização, um partido, são, por um lado, a posse de um programa e o estabelecimento de metas, e, por outro, a capacidade de ação, para a qual a vontade de agir e motivar os liderados são fundamentais. Lula mostrou possuir essas duas virtudes, ideias e ação, que a coalizão neoliberal, sobretudo seu braço sociopolítico, nucleado por instituições financeiras privadas, rentistas e grande mídia, também possuem.

 As duas virtudes servirão aqui como roteiro. Diante da conjuntura recessiva, que comprometeu 2015 e prossegue nesse ano novo, parece evidente que o mais importante tema programático a abordar, entre as diversas matérias incluídas na entrevista, é a questão da economia. Lula deixou claro que o enfrentamento da crise econômica é um desafio político. Segundo ele, “Dilma tem que ter como obsessão a retomada do crescimento econômico a geração de emprego e a redução da inflação”. Não há conserto para a economia que não seja pelo crescimento. Se os aumentos dos impostos não são possíveis, os recursos do Estado dependem da recuperação da principal fonte de arrecadação, a atividade produtiva, a ser tributada com base na estrutura tributária existente. O governo, sobretudo a presidente e o ministro da Fazenda, precisam esclarecer o que acontecerá daqui para a frente, apresentar um projeto crível e, assim, reconquistar a confiança perdida após a vitória eleitoral da chapa petista em 2014. O mal humor não pode prevalecer, a esperança precisa ser resgatada.

O governo tem que acreditar no que quer fazer, dar o exemplo e ser o indutor. A alavanca é a retomada dos investimentos, nos setores público e privado. Para tanto, a principal política é a oferta de crédito, o recurso de financiamento dos investimentos. Entre as fontes para os investimentos privados, Lula destacou a liberação do depósito compulsório dos bancos pelo Banco Central, política que foi implementada em 2008, resultando no ingresso de quase R$ 100 bilhões no sistema financeiro, para empréstimos. Uma eventual liberação de recursos para financiar a retomada da atividade econômica não pode servir à compra de títulos públicos pelos bancos. Retomou a proposta, formulada na entrevista de novembro, que, nas cadeias produtivas, as grandes empresas devem ser avalistas das menores, que lhes são fornecedoras, para estas obterem crédito com taxas de juros mais baixas.

A área-chave da retomada é a infraestrutura. Obras inconclusas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Programa de Investimento em Logística (PIL) precisam ser encaminhadas. As concessões de portos, aeroportos, ferrovias e energia elétrica ao setor privado devem andar. “O Tribunal de Contas não pode demorar dois anos para dar parecer sobre a política de concessão de portos”. Sugeriu também a realização de algum projeto estratégico de investimento em infraestrutura com a China.

Outro crédito complementar deve ser para o consumo. Defendeu a ampliação do crédito consignado para os trabalhadores da indústria. O foco, segundo ele, é o mercado interno, que qualificou como extraordinário. “Exportação é muito importante, mas, em época de crise, todo mundo quer vender e ninguém quer comprar, e não temos condições de competir com quem tem produtos de alta sofisticação tecnológica”. Por outro lado, sem ignorar a necessidade de construção da mudança da estrutura produtiva, considera muito importante “investir em inovação, para se exportar conhecimento e tecnologia”.

Enfatizou que as decisões têm que ser precedidas pela discussão entre as partes envolvidas. Essa arte da negociação é uma das principais virtudes de Lula, desenvolvida desde a sua experiência como sindicalista, quando também liderou greves históricas. Em alguns casos, essa virtude parece ser exagerada, ao bloquear a disposição para o enfrentamento político necessário à adoção de medidas de conteúdo menos gradualista, como talvez tenha sido o caso da política macroeconômica de seus governos, com Henrique Meirelles presidindo o Banco Central. Disse que governou para todos, mas, ao mesmo tempo, teve e tem lado, o dos pobres, vistos por ele como força socioeconômica importante para impulsionar uma estratégia de desenvolvimento. Avalia que há uma nítida oposição das elites contra a redução das desigualdades. O preconceito e a intransigência estão nos que habitam o andar de cima, os de baixo são tolerantes. Ademais, denominou-se liberal e pragmático, embora de esquerda. Considera que Dilma é mais de esquerda que ele próprio. Por outro lado, embora não tenha dito, sua sucessora é menos dotada de capacidade de diálogo.

Propõe que Dilma projete a imagem de sua saída do governo, que, obviamente, não deve ser negativa, e se engaje ferrenhamente na mudança da situação atual, para que termine o mandato de cabeça erguida, saindo pela porta da frente. De sua parte, afirmou que gosta de uma briga e está disposto para ela. A política tem altos e baixos. Enunciou um lema, que provavelmente define seu caráter aristotélico de animal político: “Desistir, jamais, perseverar, sempre!” Acredita que, apesar da inaceitável criminalização do PT pela grande mídia, a agremiação errou, sim, adaptando-se à lógica dos partidos tradicionais ao ingressar nas instituições representativas, mas ressurgirá das cinzas, podendo surpreender até mesmo nas eleições de 2016. Seu propósito é motivar o PT. Convidou os jornalistas a imaginarem o que seria o Brasil e a política brasileira sem o Partido dos Trabalhadores.

Por fim, Lula deixou claro que a continuidade do projeto iniciado em 2003, norteado pela inclusão econômica, social e política, mas imerso em crise em 2015, depende de o governo virar o jogo e abrir caminho para um candidato viável, seja ele do PT, incluindo, eventualmente, seu nome, ou da base político-partidária de sustentação de Dilma. Pensando nas lideranças políticas que emergiram desde a transição do autoritarismo para a democracia, o principal fundador do PT está no pódio, na condição de amado ou odiado. Não à toa, o grande objetivo de algumas elites do Estado, que trabalham nas instituições públicas relacionadas à Operação Lava Jato, é pescar peixe grande, Lula, ex-retirante nordestino, que se tornou presidente da República e liderança do social-desenvolvimentismo.

* Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador das relações entre Política e Economia e Visiting Researche Associate da Universidade de Oxford (Latin American Centre)

Tags: Artigo, Lula, brasil, ianoni, marcus, política

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