Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

Marcus Ianoni

Por entre ideias e cargos, a ideologia avança

Marcus Ianoni

O trágico acidente aéreo que tirou a vida de Eduardo Campos, assessores e pilotos alterou a competição eleitoral para a Presidência da República. Mas esse artigo não vai prospectar sobre possíveis cenários eleitorais resultantes. A preocupação aqui é com uma questão teórica encerrada no desafio político enfrentado pelo PSB: o que fazer?

No início de século XX, ao analisar os partidos políticos, o sociólogo alemão Max Weber distinguiu dois grandes princípios em que eles se baseiam: conquista de cargos ou concretização de ideias. Na política real, os partidos acabam combinando os dois princípios, sendo que em uns, talvez a maioria, os cargos tendem a subordinar as ideias – desnudando sua precariedade ou condição secundária – e em outros, provavelmente minoritários, essas últimas esforçam-se para legitimar os cargos sem os quais não têm como se concretizar.

Parece estar fora de dúvida que a Coligação Unidos pelo Brasil (PSB, Rede, PPS, PPL, PRP e PHS), a começar pelo partido que Eduardo Campos liderava, vai escolher Marina Silva como cabeça de chapa. Essa escolha, ao menos em tese, parece significar uma opção pelas ideias, embora mantida a ressalva weberiana de que, na prática e em regra, os partidos combinam os dois princípios em que se baseiam. As pressões internas por uma escolha motivada pelos cargos apareceram e foram explicitadas na mídia. Alguns membros da Executiva do PSB manifestaram-se refratários ao nome de Marina Silva, entre outros motivos, porque, em caso de sua vitória eleitoral, o Palácio do Planalto cairia nas mãos da Rede. Mas, prevalecendo a escolha de que aquela que formalmente ainda é a candidata a vice-presidente seja a locomotiva da candidatura, a balança pende para a manutenção do empenho de Eduardo Campos de se desenvolver uma terceira via ou projeto alternativo ao representado pelo PT e PSDB, que dominam as preferências nas disputas pelo Executivo Federal desde 1994.

PT e PSDB, embora em nada desapegados aos cargos, são também os partidos orgânicos dos dois principais projetos em disputa no país desde 2003, respectivamente, o social-desenvolvimentismo e o neoliberalismo. Possível ou não de se concretizar, a ideia da terceira via foi o desafio ao qual Eduardo Campos se propôs. Em artigo anterior nessa coluna, eu indagava, criticamente, sobre até que ponto a candidatura de Campos não estava inclinada a ser uma espécie de neoliberalismo renovado, dado o desgaste de seu congênere original. Por dois motivos eu não indaguei, na ocasião, que a terceira via poderia ser um social-desenvolvimentismo renovado. Em primeiro lugar, porque a estrutura sociopolítica do social-desenvolvimentismo é constituída pelos trabalhadores e capitalistas do setor produtivo, o que não se observava – e me parece que até agora nada mudou – na Coligação Unidos pelo Brasil. Em segundo, a assessoria econômica e algumas das propostas nessa área afastavam-se do social-desenvolvimentismo e aproximavam-se do ideário neoliberal, como a preocupação com a formalização da autonomia operacional do Banco Central e com metas de inflação mais rígidas. Seja como for, a hipótese de que a terceira via poderia ser um neoliberalismo renovado mantinha-a no terreno que propicia a legitimação da disputa pelos cargos por estes servirem também à concretização de ideais. 

  O que será da terceira via não se sabe, mas ao menos a escolha de Marina Silva parece reforçar uma tendência positiva em um pequeno núcleo da política partidária brasileira no sentido de dar lugar a algumas ideias em um universo de relações políticas povoado pela patronagem nua e crua. A presença do social-desenvolvimentismo, desde 2003, com suas conquistas e limites, tem a ver com esse renovado movimento ideológico no campo político. Não à toa, Dilma Roussef, Aécio Neves e Eduardo Campos, nessa ordem, estavam à frente em todas as pesquisas de intenção de voto divulgadas até o dia 13 de agosto. Essas três candidaturas continuarão, no novo contexto pós-tragédia, a centralizar a disputa. As que contam com mais máquina partidária são as duas primeiras.

*Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política daUniversidade Federal Fluminense (UFF)e pesquisador das relações entre Política e Economia.

Tags: coluna, ianoni, JB, marcus, texto

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