Jornal do Brasil

Sábado, 29 de Novembro de 2014

Marcus Ianoni

Campos de política e a política de Campos

Marcus Ianoni

Desde as eleições de 1989, dois grandes campos políticos têm disputado o Governo Federal: a direita neoliberal e a esquerda, inicialmente socialista, depois  moderada, de orientação social-desenvolvimentista. Foi assim em 1989, entre Collor e Lula, em 1994, com Fernando Henrique Cardoso e Lula, nomes que disputaram novamente em 1998, foi assim em 2002, no confronto em Lula e Serra, em 2006, com Lula e Alckmin e em 2010, com Dilma e Serra. Sabemos que os vencedores nessas seis eleições foram os seguintes: Collor, seguido por duas vitórias de Fernando Henrique Cardoso, após isso, duas vitórias de Lula e a de Dilma Roussef, em 2010. Com exceção de Collor, todos os demais candidatos do campo neoliberal foram do PSDB. E todos os candidatos da esquerda social-desenvolvimentista têm sido petistas. É possível um terceiro campo político, conforme Eduardo Campos pretende constituir? Com todas as ressalvas que as previsões nas disputas eleitorais devem ter, sobretudo quando oficialmente a campanha nem sequer começou, passo a alinhavar uma resposta. 

Em primeiro lugar, por que Eduardo Campos se tornou candidato? Desde 1989, o PSB vinha compondo, nacionalmente, a aliança popular com o PT, na qual o PCdoB também sempre esteve presente, sendo que o PDT nela ingressou após as eleições presidenciais de 1994. Nas eleições municipais de 2012, o PSB conquistou algumas vitórias importantes. Embora tal resultado não tenha impactado na alteração da relação de forças entre os partidos da base aliada e de fora dela, passou-se a cogitar, já naquele ano, que o então governador de Pernambuco, principal liderança emergente do PSB, seria candidato. Na ocasião, ele logo negou e confirmou taxativamente seu apoio a Dilma em 2014: "não é o momento de adesões baratas e nem de arrebatamentos de oposição oportunista". Em setembro de 2013, no entanto, o PSB entregou os cargos em Brasília, rompeu com o governo federal e a aliança nacional com o PT, o que se seguiu em vários estados, embora não em todos. No mês seguinte, Eduardo Campos e Marina Silva anunciaram aliança, em função da Rede Sustentabilidade, partido liderado pela acreana, não ter conseguido o registro que lhe permitiria disputar as eleições desse ano. A avaliação positiva do então governador de Pernambuco, a possibilidade, real ou imaginária, de capturar votos da base eleitoral petista no nordeste, a ocorrência das manifestações de junho, a aliança com Marina Silva, que recebeu 20 milhões de votos em 2010, enfim, levaram Eduardo Campos a mudar em cento e oitenta graus a sua posição, a declarar-se candidato e a se colocar na oposição a Dilma. Respondo à questão formulada no início do parágrafo com uma pergunta ao leitor: será arrebatamento oportunista, como o próprio Eduardo Campos qualificou, em 2012, a eventual possibilidade de uma candidatura de oposição a Dilma?

  Em segundo lugar, quais são as suas propostas? Nesse terreno, o programa econômico, a começar pelo ambiente macroeconômico, conta muito, pois identifica os principais interlocutores. Os assessores econômicos mais qualificados da coalizão PSB-Rede – que atraiu também o PPS, tradicional partido de oposição aos governos do PT – são André Lara Resende e Eduardo Giannetti da Fonseca, publicamente reconhecidos pelas suas posições neoliberais. Campos tem defendido a formalização, através de lei, da independência operacional do Banco Central, que hoje existe informalmente. O BCB teria um presidente com mandato fixo e não coincidente com o do Executivo em exercício. As metas de inflação seriam conduzidas visando, gradualmente, focar o centro da meta e esse centro seria reduzido. Tal objetivo seria perseguido gradualmente, chegando a 3% no início de seu eventual segundo mandato, estando hoje em 4,5% o centro da meta. Essas duas medidas têm sido destacadas e ambas dialogam com os rentistas e as instituições financeiras, ou seja, são medidas de clara sinalização neoliberal, que, se implementadas, tenderiam a inviabilizar a adoção de uma política monetária que buscasse equacionar duas variáveis, o nível de emprego e o controle da inflação. Ainda no âmbito da política macroeconômica, essa pré-candidatura propõe criar um conselho de responsabilidade fiscal. Ou seja, coerentemente com o maior aperto monetário, haveria mais aperto fiscal. Novamente, o conteúdo neoliberal forte se revela.

  Ao mesmo tempo, Eduardo Campos se apresenta como de esquerda e progressista. Diz que vai incentivar o diálogo e a participação, combater a corrupção e o fisiologismo, reduzir o número de ministérios, que não vai promover privatizações, que vai manter a política social, mas não com base no aumento dos gastos, e sim a partir da arrecadação, que supostamente aumentaria com a retomada do crescimento em níveis maiores.

Na disputa presidencial de 1989, delinearam-se três principais campos políticos: a direita neoliberal (Collor), a centro-esquerda (Brizola) e a esquerda (Lula). O segundo turno foi disputado entre Collor e Lula. Hoje, segundo os dados mais recentes do Datafolha, os principais campos políticos que disputam o país desde 1994 continuam nos dois primeiros lugares das preferências eleitorais nas pesquisas de opinião, mas uma terceira candidatura, a de Eduardo Campos, reúne 11% das intenções de voto. Em primeiro lugar – e até aqui capaz de vencer no primeiro-turno – está a candidatura de centro-esquerda, encabeçada por Dilma (38%), seguida pela de Aécio Neves, com 20%. A questão que se coloca é a seguinte: será possível evoluir nas preferências do eleitorado e das classes e frações burguesas uma candidatura neoliberal mais de centro, em matéria de propostas de política econômica e demais políticas públicas, e menos direitista em relação ao que o PSDB realmente representa como portador histórico do projeto e dos interesses sociopolíticos de uma minoria rentista e financista descompromissada com a equidade? Só acontecendo isso, haverá segundo turno. De qualquer modo, pelo que se observa até o momento, os dois principais campos políticos estruturais, o social-desenvolvimentismo, institucionalizado na aliança PT-PMDB, e o neoliberalismo polarizam a disputa, podendo apenas o último emergir com aparência renovada, com um “d” a menos na legenda partidária principal e fantasiado de progressista, mas comprometido muito mais com o rentismo e a financeirização do que com o desenvolvimento produtivo e a justiça social. Parece que a confluência entre, por um lado, a crise do neoliberalismo no Brasil, que tem seus interesses relativamente afetados com os esforços, desde Lula, para constituir e consolidar o campo político social-desenvolvimentista e, por outro, as dificuldades, na gestão Dilma, da coalizão de centro-esquerda entre capital e trabalho avançar em termos de crescimento, enseja a oportunidade de se investir não exatamente em uma terceira via, mas em um neoliberalismo renovado. Isso terá fôlego? A conferir.

Tags: coluna, ianoni, JB, marcus, texto

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