Jornal do Brasil

Sábado, 26 de Julho de 2014

Marcus Ianoni

Ideologia? A população quer Estado

Marcus Ianoni

Desde a posse de Lula, em 2003, tem havido, da parte do Governo Federal, ações que evidenciam uma retomada da presença do Estado em políticas públicas destinadas às áreas social e econômica. Essa nova postura governamental, implementada em contexto de regime democrático, tem ensejado também a retomada do clássico debate político-ideológico sobre os meios de transformação da sociedade, que opõe dois grandes campos: intervencionistas e liberais.  Tais campos ideológicos, quando configurados na democracia, correspondem a uma das principais formas de expressão da divisão, respectivamente, entre esquerda e direita, ambas de teor moderado, que poderíamos caracterizar como centro-esquerda e centro-direita. Há evidências políticas que indicam haver condições para um novo avanço da esquerda reformista no Brasil, cuja concretização, a médio prazo, depende dos rumos da disputa política e eleitoral.

  Pesquisa recente, por exemplo, realizada pelo Instituto Data Popular (IDP) e bastante divulgada na imprensa, intitulada "A Relação dos Brasileiros com os Serviços Públicos", mostra que dois terços dos entrevistados associam fortemente a qualidade de vida da população ao provimento de benefícios públicos. Nesse aspecto, o resultado difere do coletado pelo Datafolha em dezembro de 2013, que registrou um empate entre 47% de pessoas que consideram que quanto mais benefícios receberem do governo, melhor (no nordeste, 53%), e, por outro lado, o mesmo número avalia que quanto menos depender do governo, melhor. Ou seja, na correlação entre ação governamental em geral e melhoria das condições de vida, as duas pesquisas mencionadas diferem: na primeira, vence a esquerda, na segunda, há empate entre as duas preferências ideológicas. Mas, quando o Datafolha pergunta especificamente sobre a ideologia dos entrevistados, há uma leve preferência para a esquerda e centro-esquerda, que somam 41%, ao passo que direita e centro-direita somam 39%. O centro abocanha 20% das preferências, configurando-se como uma reserva ideológica que pode vir a ser o fiel da balança na disputa político-eleitoral.

Por outro lado, as duas pesquisas apontam preferência pelos valores ideológicos de esquerda na esfera econômica. Segundo o IDP, 61% da população acham que o governo deve atuar com força na economia para evitar abusos das empresas e a pesquisa do Datafolha concluiu, então, que o brasileiro médio tende à esquerda no campo econômico: 70%, por exemplo, pensam que o crescimento econômico deve ser, sobretudo, um objetivo de responsabilidade do governo, e não do setor privado, e 54% veem as leis trabalhistas como importantes para a defesa dos trabalhadores, e não como o empecilho às empresas, concebido pela direita.

O levantamento do IDP também favorece a ideologia de esquerda em relação aos impostos: 81% desejam mais a melhora dos serviços públicos do que a redução dos impostos, mesmo avaliando que a carga tributária brasileira é alta. Ou seja, a grande maioria quer serviço público de qualidade, está insatisfeita com a oferta atual, quer que o Estado tenha recursos fiscais para provê-los e está disposta a arcar com os custos da política social. Parece que a concepção de cidadania, que envolve direitos e deveres, está avançando no país ou, ao menos, tem condições político-ideológicas para avançar.

Realmente, o grande trunfo para a esquerda reformista está nas políticas sociais. Os entrevistados querem Estado, querem a oferta gratuita de serviços públicos: 91%, por exemplo, desejam saúde e educação públicas e 56%, transporte custeado pelo Estado. A amostra da pesquisa abrangeu 53 cidades de todas as regiões do país, sendo que 81% são usuários de educação pública, 75%, de saúde pública e 59%, de transporte público. 56% acreditam que os direitos de cidadania dependem de decisões de políticas públicas.

Enfim, a pesquisa coletou outras informações, como a seguinte: entre os 67% que consideram que a vida melhorou, 52% atribuem essa melhora ao esforço pessoal e 31%, a Deus. Mas, a hipótese aqui formulada é que há um espaço político-ideológico propício para aprofundar o avanço da esquerda reformista no Brasil. As manifestações de rua, em junho de 2013, demandaram serviços públicos e políticas sociais. O programa Mais Médicos avançou nessa direção. A política de valorização do salário mínimo e o Bolsa Família já vinham alavancando suporte político para um grande contingente eleitoral que André Singer interpretou com base no conceito de “lulismo”. A população quer Estado nas áreas social e econômica, ou seja, o social-desenvolvimentismo tem uma consistente base sociopolítica. O difícil sucesso dos liberais dependerá de sua capacidade de navegar contra essa onda histórica. O processo eleitoral precisa aprofundar esse debate político-ideológico.

*Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política daUniversidade Federal Fluminense (UFF)e pesquisador das relações entre Política e Economia. 

Tags: coluna, ianoni, JB, marcus, texto

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