Jornal do Brasil

Sábado, 21 de Julho de 2018 Fundado em 1891
Maitê Proença

Colunistas - Maitê Proença

Meu irmão negro

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Tive um irmão negro. Não era suficientemente negro talvez, era como a cantora Fabiana Cozza, filha de pai negro com mãe branca, que se viu obrigada a abrir mão do papel de Dona Ivone Lara num musical para o qual havia sido testada e aprovada - inclusive pela família da sambista - por não ter a pele suficientemente escura. Aconteceu há semanas e saiu nos jornais do Rio. O desabafo da moça, torturada pela patrulha dos “irmãos”, foi de perplexidade por ter “dormido negra e acordado branca”. A questão do colorismo é legítima mas a lógica dos irmãos parece às vezes bater de frente com a sua razão de ser. 

Voltando ao meu irmão, Zuza era pardo, como tantos jogadores de nossa seleção, daquele tom meio aqui meio ali. E eu nunca havia pensado nisso. Até agora. Em sessenta anos jamais fiz qualquer consideração sobre a cor da pele de meu irmão. Nunca me ocorreu que ele fosse mais escuro do que eu, Zuza era apenas o irmão amado que morreu cedo demais por não ter aguentado o desmantelar da família, entre outros sofrimentos, que afligem, de forma igual, pessoas de todas as cores. Tenho pra mim que sua morte se deu sobretudo por não ter superado a frustração com seu sonho maior, o de ser jogador. E é por isso que falo nele, e não pela questão da pele, de que só me apercebi agora, porque tem se tratado muito disso, e me surpreendi também pensando em cores e tons.

Nós morávamos perto do campo do Guarani, em Campinas, e houve época em que dava pra subir pelas paredes e assistir aos jogos empoleirados nos muros do estádio. Pequena, eu acompanhava o irmão mais velho na travessura, e ali do alto, ele ia me explicando os lances cheio de gás e vontade de descer pro gramado e mostrar seu jogo. Um dia Zuza foi convidado pra integrar o juvenil do time e chegou em casa eufórico para contar a novidade. Chumbo. Meu pai não deixou, Zuza tinha que estudar, futebol era lazer, estava fora de questão. O pai foi irredutível e eu acho que aquele entrave nunca desceu, trancou-lhe todo pela garganta e meu irmão virou um homem incompleto, que, depois do falecimento de minha mãe, e de meu pai, deu-se também por encerrado, e interrompeu seu desconsolo, bebendo tanto, que morreu em 4 meses. Afogou-se.

Zuza era lindo, tinha cor de jogador, corpo de jogador, e pernas gloriosas. Penso que se o pai não tivesse inibido seus desejos, teria sido um Cristiano Ronaldo, um Neymar, um Pelé!

Era mais velho que eu uns oito anos. Meu pai o pegou pra criar antes de casar. Em início de carreira, Eduardo foi promotor público em Ubatuba, uma autoridade na cidade. O pai legítimo do Zuza, caiçara e servente de pedreiro, chegou no escritório do promotor, com sete crianças, e disse, Dr., Minha mulher morreu e deixou essa filharada que não tenho como alimentar, o senhor vai ter que me ajudar. Eduardo olhou os pirralhos perfilados e respondeu, Pra começo você já pode me entregar aquele ali. E o servente deu o Zuza pro meu pai. Eduardo casou com nossa mãe, e quando eu nasci, Zuza vivia lá em casa, em Ubatuba. Zuza era craque em tudo que havia de importante na vida: sabia catar caranguejo no mangue enfiando o braço até o pescoço, sabia remar nossa canoa (só minha e dele) do rio até o mar, sabia fazer balão, empinar as pipas que nós fabricávamos. Zuza fazia o melhor estilingue da redondeza e sempre acertava os passarinhos. Quando os pássaros não morriam, ele sabia cuidar pra que renascessem. Zuza sabia tudo e me ensinava. Zuza era o maior!

Quando vejo o Phillipe Coutinho, o William, Firmino e Neymar enfeitiçando a bola em campo, me lembro do Zuza, me encho de orgulho, e me tomo de esperança pela graça diversa do nosso Brasil.



Tags: copa do mundo, futebol, maitê proença, neymar, seleção

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