Jornal do Brasil

Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

Leonardo Boff

A consciência persegue o corrupto mesmo que ninguém o condene

Leonardo Boff

Há uma voz dentro de nós que nunca conseguimos fazer calar. É a voz da consciência. Ela está acima da ordem estabelecida e das leis vigentes. Há fatos criminosos  como violar inocentes, tirar da boca do faminto o pão que o salvaria da morte, roubar o dinheiro destinado à saúde e à educação, praticar corrupção como verdadeira pilhagem de milhões de reais que eram para a infra-estrutura e outros crimes hediondos.Pode o criminoso se acostumar  a tais práticas a ponto de criar uma segunda natureza e pensar: “como a coisa é de todos, portanto, de ninguém, posso me apropriar dela”. Se ocupa um cargo publico diz:”quem se enriquece nessa posição é um esperto, quem não o faz é um bobo”. A corrupção, endêmica no Brasil, se rege por  tal sofisma.

Mas ninguém pode se livrar da voz interior, a natureza primeira, que inapelavelmente o acusa e pede punição. Pode fugir como Caim mas ela continua, como um tímpano, a vibrar dentro dele. O corrupto foge mesmo que a justiça não o persiga, Quem é esse que vê dentro do coração e para o qual não existem segredos e câmaras secretas? Novamente a consciência: ela julga, admoesta, corrói por dentro, aplaude e condena.

Os homens do espírito de ontem e de hoje testemunham: é Deus dentro de nós. Pouco importa o nome que lhe dermos conforme as diferentes culturas. Mas temos a ver com uma instância que é mais alta que nós, cuja voz não consegue ser abafada pelo vozerio humano por mais forte que seja. Com acerto escreveu Sêneca:”A consciência é Deus dentro de ti, junto de ti e contigo”.

Abundam exemplos históricos. Refiro um antigo e outro moderno. No ano 310 o imperador romano Maximiliano mandou dizimar uma unidade de soldados cristãos porque se negaram a matar inocentes. Antes de serem degolados escreveram ao imperador:”Somos teus soldados, imperador, mas antes somos servos de Deus. A ti fizemos o juramento imperial, mas a Deus prometemos não praticar nenhum mal. Preferimos morrer a matar. Optamos ser mortos como inocentes do que viver com a consciência sempre nos acusando”(Passio Agaunensium,n.9).

Mil e quinhentos anos após, a 3 de fevereiro de 1944, escreveu um soldado alemão e cristão  a seus pais: ”Queridos, fui condenado à morte porque me neguei a fuzilar prisioneiros russos indefesos. Prefiro morrer a levar pela vida afora a consciência carregada com o sangue de inocentes. Foi a senhora, querida mãe, que me ensinou sempre a seguir a consciência e só depois as ordens dos homens. Agora chegou a hora de viver esta verdade”(P.Malevezzi & G.Pirelli (org), Letzte Briefe zum Tode Verurteilter, 1955, p.489). E acabou fuzilado.

Que força é essa que nestes dois pequenos relatos encheu de coragem os soldados romanos e o soldado alemão para poderem agirem assim? Que voz é essa que os aconselhou antes morrer do que matar? Que poder possui essa voz interior a ponto de vencer o medo natural de morrer? É a voz imperiosa da consciência. Nós não a criamos, por isso não podemos destrui-la. Podemos desobedecê-la. Negá-la. Recalcá-la com remordimentos. Mas faze-la silenciar, isso não podemos.

A consciência é intocável e suprema. O respeito  a ela é tão grande que até a consciência invencivelmente errônea deve ser ouvida e seguida. Por isso os Bispos reunidos no Concílio Vaticano II (1962-1965) deixaram escrito: ”A consciência mesmo quando invencivelmente erra, não perde sua dignidade (De dignitate Humana, n. 2).

Está em  consciência invencivelmente errônea a pessoa que empenha todos os esforços para buscar sinceramente a verdade, perguntando, estudando, deixando-se aconselhar por outros e questionando a si mesmo e mesmo assim erra. Se alguém fizer tudo isso e errar, então, tem o direito de ser respeitado e ouvido porque foi consequente com sua consciência.

Todo o homem pode errar tragicamente, com a melhor das boas vontades. Por isso deve sempre se interrogar como está escutando ou não a voz interior. Blaise Pascal ponderava sabiamente:”Nunca fazemos tão perfeitamente o mal como quando o fazemos com boa consciência”. Só que essa consciência não é boa. Albert Camus referindo-se à moral da obediência cega escreveu:”A boa vontade pode causar tanto mal quanto a má, quando não for suficientemente bem informada”, quer dizer, quando não escutar a voz da consciência, chamando-o para a boa ação.

Tudo isso escrevemos, pensando na vergonhosa corrupção que contaminou nossa sociedade, praticamente em todos os níveis, especialmente os grandes donos de empresas e políticos do mais alto escalão, até o desastrado presidente de república. São moucos face à sua consciência que os incrimina. Chegará o momento em que irão responder a um mais Alto.

Leonardo Boff é articulista do JB on line, filósofo e escreveu O destino do homem e do mundo, Petrópolis 2012.

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