Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

Leonardo Boff

Ainda a mística e a espiritualidade para jogadores de futebol

Leonardo Boff*

Num artigo anterior abordei a necessidade de além do acompanhamento psicológico dos jogadores brasileiros da Copa Mundial de Futebol se recomendaria também um acompanhamento espiritual. Falava então de mística, num sentido não confessional mas como expressão da dimensão do profundo humano, um dado antropológico de base. 

Quero abordar agora especificamente a espiritualidade, tão em voga hoje, até entre grandes nomes da ciência.  Não como monopólio das religiões mas como uma dimensão do humano com o mesmo direito de cidadania que a vontade, a inteligência, o poder e a libido.    

Entre as muitas formas de inteligência estudadas hoje, destacam-se particularmente três: a inteligência intelectual, a inteligência emocional e a inteligência espiritual. Todas elas são fundadas em sérias pesquisas científicas. 

Pela inteligência intelectual (o famoso QI), organizamos nossos pensamentos, articulamos os vários saberes, especialmente a linguagem e as estratégias da ação. Ela está ligada àquela dimensão do cérebro chamado de neocórtex. Este no processo da antropogênese é relativamente novo. Não possui mais que 7-8 milhões de anos mas plenamente desenvolvido com o surgimento do homo sapies sapiensI há cerca de cem mil anos. A obra civilizatória com suas artes e ciências se deriva do neocórtex. Sem ela não entenderíamos o mundo de hoje, nem sobreviveríamos. Mas a inteligência intelectual sozinha não dá conta da vida humana. 

Existe em nós a inteligência emocional, estudada particularmente  por Daniel Goleman, no seu famoso livro Inteligência emocional (Objetiva, 1995). Ela está vinculada ao cérebro límbico, que surgiu há mais de 130 milhões de anos, quando irromperam na evolução os mamíferos. Eles carregam a cria dentro de si. Nascida, cuidam-na, cercam-na de carinho e amor. Surgiu no universo conhecido algo absolutamente novo: a emoção, o afeto, o sentimento, a paixão, o amor e também os seus contrários. Nós, seres humanos, esquecemos que somos mamíferos intelectuais e racionais. As camadas mais profundas e decisivas de nossa vida possuem essa história milenar. Somos antes de mais nada seres de emoção e de sentimento. 

Goleman mostrou que a primeira reação humana face a qualquer fenômeno não é intelectual/racional, mas emocional. Alguns momentos após, entra em ação a inteligência racional/intelectual. Alguns filósofos (Maffesoli, Cortina, Scheler, Muniz Sodré, Duarte Jr) a chamam tambén de “razão cordial, ou sensível”. Goleman critica a inflação da inteligência racional, que tornou as pessoas insensíveis, individualistas, competitivas e dadas à violência ao invés de serem  mais solidárias, compassivas e humanitárias. Sugere uma verdadeira “alfabetização emocional” a partir da escola, coisa que venho postulando já há 20 anos com os livros Saber cuidar e o Cuidado necessário (ambos da Vozes). Ele diminui a violência em todos os campos. Na inteligência emocional  reside o nicho dos valores, da ética, do amor e do que dá sentido à nossa vida. 

Por fim, existe em nós a inteligência espiritual. Nos últimos vinte anos, desenvolveu-se fortemente a neurociênica, a neurolinguística e outras afins, que estudam o cérebro humano. Nele há bilhões e bilhões de neurônios e trilhões de sinapses (conexões entre eles). Houve uma constatação surpreendente: sempre que alguma pessoa se ocupa existencialmente com visões globais das coisas, com o sentido da vida e com o sagrado e Deus, no lobo frontal, se verifica uma aceleração inusitada dos neurônios. Danah Zohar, uma cientista quântica, com seu marido psiquiatra, Ian Marshall, sumariaram as muitas pesquisas num livro que está em portugués: QS: A inteligência espiritual (Record, 2000). Os cientistas e não  os teólogos  deram a essa experiênica o nome de o Ponto Deus  no cérebro. Trata-se de uma vantagem evolutiva do ser humano: possuir um órgão interno pelo qual capta o Todo ligado por um Elo sagrado que tudo unifica. Assim como temos órgãos externos, olhos, nariz, ouvido etc, pelos quais captamos o mundo material, temos um órgão interno pelo qual captamos esse Elo, tido como a Suprema Realidade, que  tudo sustenta. Podemos chamá-la de mil nomes. Não importa. O mais simples é chamá-la de imagem de Deus (Deus mesmo é mais que o “Ponto Deus”). Essa dimensão está em cada pessoa e constitui a base biológica da inteligência espiritual. Ela se manifesta por mais sensibilidade face ao outro, por mais amor, mais compaixão, mais respeito e mais devoção. A nossa cultura materialista a cobriu de cinzas pelo seu consumismo e vontade de tudo dominar. Ativado o “Ponto Deus”, nos humanizamos e nos espiritualizamos. O fruto é uma profunda paz e serenidade, e o sentimento de estarmos inseridos num Todo maior que nos acolhe. Sentimo-nos repletos de “entusiasmo”: a presença do Deus interior. 

Escrevi um livrinho com o título Meditação da Luz, o caminho da simplicidade (Vozes, 2010), onde tento traduzir a ativação do “Ponto Deus” servindo-me do caminho mais antigo do Oriente e do Ocidente, que é tomar a Luz como elemento despertador e ativador do “Ponto Deus”. Ouso uma sugestão: 

Que tal se o treinador e os jogadores, além dos treinos e da indispensável psicologia, incorporassem um momento de meditação para ativar seu “Ponto Deus”? Seguramente, sentiriam muito mais paz e estariam mais aptos  para o jogo.

* Leonardo Boff, teólogo e escritor, pertence à Associação Internacional de Psicologia Analítica (IAAP), de linha junguiana,  Zurique. - leonardo Boff

Tags: anterior, Artigo, Copa, futebol, jogo, PAZ, ponto deus

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