Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Leonardo Boff

O resgate do contrato natural com a Terra

Leonardo Boff*

Até o presente momento, o sonho do homem ocidental e branco, universalizado pela globalização, é dominar a Terra  e submeter todos os demais seres em função de auferir benefícios de forma ilimitada. Esse sonho, depois de quatro séculos, se transformou num pesadelo. Como nunca antes, o apocalipse pode ser realizado por nós mesmos,  escreveu o grande historiador Arnold Toynbee. 

Por isso, impõe-se uma reconstrução de nossa humanidade e de nossa civilização com outro tipo de relação para com a Terra para que seja sustentável. Vale dizer: para que consiga manter as condições de manutenção e de reprodução que  sustentam a vida no planeta. Isso só ocorrerá, se refizermos o pacto natural com a Terra e se considerarmos que todos os seres vivos, portadores do mesmo código genético de base, formam a grande comunidade de vida. Todos eles têm valor intrínseco, e por isso sujeitos de direitos. 

Todo contrato é feito  a partir da reciprocidade, da troca e do reconhecimento de direitos de cada uma das partes. Da Terra recebemos tudo: a vida e os meios de vida. Em retribuição, em nome do contrato natural, temos  um dever de gratidão e de retribuição e de cuidado para que ela mantenha sempre a vitalidade para fazer o que sempre fez para todos nós. Mas nós, há muito, rompemos esse contrato. 

Para refazer esse contrato natural, devemos ser como o filho pródigo da parábola de Jesus. Voltar para a Terra, a Casa Comum, e pedir perdão. Esse perdão se traduz numa mudança de comportamento no sentido do respeito e do cuidado que ela merece. A Terra é nossa Mãe, a Pacha Mama dos andinos  e a Gaia dos modernos. Se não restabelecermos esse  laço, dificilmente sobreviveremos. Ela pode não nos querer mais sobre a face terrestre. Por isso que a sustentabilidade aqui é essencial. Ou ela se prevalecerá, ou conheceremos uma tragédia para o sistema vida e para  a espécie humana. 

Apesar de todas as rupturas do contrato natural, a Mãe Terra nos envia ainda sinais positivos. Apesar do aquecimento global, da erosão da biodiversidade, o sol continua nascendo, o sabiá cantando de manhã, as flores sorrindo aos passantes, os colibris esvoaçando por sobre os botões dos lírios, as crianças continuam nascendo e a nos confirmar que Deus ainda acredita na humanidade e que ela terá  futuro. 

Refazer o contrato natural implica resgatar aquela visão e aqueles valores representados pelo discurso do cacique Seattle, da etnia dos Duwamish, proferido diante de Isaac Stevens, governador do território de Washington em 1856:

De uma coisa sabemos: a Terra não pertence ao homem. É o homem que pertence à Terra. Todas as coisas estão interligadas entre si. O que fere a Terra, fere também os filhos e filhas da Mãe Terra. Não foi o homem que teceu  a teia da vida; ele é meramente um fio da mesma. Tudo que fizer à teia,  a si mesmo fará... Comprenderíamos as intenções do homem branco, se conhecêssemos os seus sonhos, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos e filhas nas longas noites de inverno, e quais as visões de futuro que oferece às suas mentes para que se possam formular desejos para o dia de amanhã. 

No dia 22 de abril de 2009, após longas e difíceis negociações, a Assembleia da ONU acolheu a ideia, por votação unânime, de que a Terra é Mãe. Esta declaração é carregada de significado. Terra como solo e chão pode ser mexida, utilizada, comprada e vendida. Terra como Mãe,  não pode ser vendida nem comprada mas amada, respeitada e cuidada, como o fazemos com nossas mães. Este comportamento  reafirmará o contrato natural que confererirá sustentabilidade ao nosso planeta, pois restabelece a relação de mutualidade. 

O presidente da Bolívia, o indígena aymara Evo Morales Ayma, vem repetindo que o século 21 será o século dos direitos da Mãe Terra, da natureza e de todos os seres vivos. Em seu pronunciamento na ONU no dia 22 de abril de 2009, na qual estive então presente, cabendo-me o discurso de fundamentação teórica da Terra como Mãe,  elencou ele alguns destes direitos da Mãe Terra: 

- o direito de sua regeneração e de sua da biocapacidade; 

- o direito à vida, garantido a todos os seres vivos, especialmente aqueles ameaçados de extinção; 

- o direito de uma vida  pura, porque a  Mãe Terra tem o direito de viver livre de contaminações  e poluições de toda ordem; 

- o direito do bem viver, propiciado a todos os cidadãos; 

- o direito à harmonia e ao equilíbrio com todas  as coisas da Mãe Terra; 

- o direito de conexão com a Mãe Terra e com o Todo do qual somos parte. 

Esta visão permite renovar o contrato natural para com a Terra, o qual, articulado com o contrato social entre os cidadãos, acabará por reforçar a sustentabilidade planetária.  

Para os povos originários tal atitude era natural. Nós, na medida em que perdemos a conexão com a natureza, perdemos também a consciência de nossa relação de reconhecimento e gratidão para com ela. Daí a importância de revisitá-los e  aprender deles o respeito e a veneração que a Terra merece.

* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é também escritor. É dele o livro ‘Proteger a Terra e cuidar da vida: Como escapar do fim do mundo'(Record, 2010). - leonardo Boff

Tags: aymara, Branco, direitos, homem, momento, ocidental, sonho

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.