Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Leonardo Boff

O  pavor dos abastados: a desigualdade

Leonardo Boff*

Está causando furor entre os leitores de assuntos econômicos, economistas  e principalmente  pânico entre os muito ricos um livro de 700 páginas escrito em 2013 e publicado em muitos países em 2014.  Tranasformou-se num verdadeiro best-seller. Trata-se de uma obra de investigação, cobrindo 250 anos, de um dos mais jovens (43 anos) e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula O capital no século XXI (Seuil, Paris, 2013). Aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e principalmente pelo processo de acumulação  capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os EUA. 

A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental mas o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persisitir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Desde 1960, o comparecimento dos eleitores nos EUA diminuiu de 64% (1960) para pouco mais de 50% (1996), embora tenha aumentado ultimamente. Tal fato deixa perceceber que é uma democracia mais formal que real. 

Esta tese sempre sustentada pelos melhores  analistas sociais, e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma:  democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de farsa. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando  a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites, a subordinação de inteiros grupos, a corrupção, fenômenos visíveis em  nossas democracias de baixíssima intensidade. 

Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desiguldade, Richard Wilkinson.  Nos EUA, executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. Eric Hobsbown, numa de suas últimas intervenções antes de sua morte, diz claramente que a economia política ocidental do neoliberalismo “subordinou propositalmenet o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inequalitário”.       

Em termos globais, citemos o corajoso documento da Oxfam intermón, enviado aos opulentos empresários e banqueiros reunidos em Davos no mês de janeiro deste ano como conclusão de seu “Relatório: Governar para as elites, sequestro democrático e desigualdade econômica”: 85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bihões de pobres do mundo. 

O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos,  de heranças e  da meritocracia;  as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando  são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam  os grandes  geradores de emprego. 

Os prêmios Nobel J. Stiglitz e P. Krugman têm mostrado que o dinheiro que receberam do governo para salvarem seus bancos e empresas mal foram empregados na geração de empregos. Entraram logo na ciranda financeira mundial, que rende sempre muito mais sem precisar trabalhar. E ainda há 21 trilhões de dólares nos paraísos fiscais de 91 mil pessoas. 

Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de real democracia quando se revelam estas excrecências humanas, que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de cossemelhantes? 

Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann (veja também Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil, Cortez, 2004): 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da financeirização, portanto, ganham através da especulação. Continua Poschmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda a riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%”(Le Monde Diplomatique, outubro, 2007). 

Segundo dados de organismos econômicos da ONU de 2005, o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo.  Mas graças às  políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o  índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade, que continua enorme, caiu 17%. 

Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza, até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbown: “O objetivo da economia não é o ganho mas, sim, o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”. 

E como um gran finale a frase de Robert F. Kennedy: ”O PIB inclui tudo; exceto o que faz a vida valer a pena”.

* Leonardo Boff é ecoteólogo e escritor. É dele o livro ‘Proteger a Terra e cuidar da vida: Como escapar do fim do mundo' (Record, 2010). - leonardo Boff  

Tags: assuntos, best-seller, brasil, econômicos, EUA, furor, leitores

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