Jornal do Brasil

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Leonardo Boff

Estamos num voo cego: para onde vamos?

Leonardo Boff - teólogo, filósofo e escritor

Quem leu meus dois artigos anteriores O funesto império mundial das corporações e Uma governança global da pior espécie: os mercadores terá seguramente concluído que na única nave espacial-Terra seus passageiros viajam em condições totalmente diferentes. Um pequeno grupo de super-ricos ocupou para si a primeira classe com um  luxo escandaloso; outros felizardos ainda viajam na classe econômica e são servidos razoavelmente de comida e bebida. O resto da humanidade, aos milhões, viaja junto às bagagens, sujeita ao frio de dezenas de graus abaixo de zero, semimortos de fome, de sede e no desespero. Esmurram as paredes dos de cima, gritando: “Ou repartimos o que temos nesta única nave espacial ou, num certo momento, acabará o combustível, e pouco importam as classes, morreremos todos”. Mas quem os escutará? Impassíveis, dormem depois de um lauto jantar.

Metaforicamente, esta é a situação real da Humanidade. Na verdade, estamos perdidos e num voo cego. Como chegamos a esta situação ameaçadora?

Temos  experimentado dois modelos de produção e de utilização dos bens e serviços naturais para atender às demandas humanas: o socialismo e o capitalismo. Ambos fracassaram. Não cabe detalhar os dados. O sistema do socialismo real era  de economia de planejamento estatal centralizado. Chegou a níveis razoáveis de igualdade-equidade nos campos da educação, da saúde e da moradia, mas, por razões internas e externas, especialmente por seu caráter ditatorial, não conseguiu resolver suas contradições e ruiu.

O sistema capitalista neoliberal de mercado livre com parco controle do Estado também fracassou em razão de sua lógica interna, a de acumular de forma ilimitada bens materiais sem qualquer outra consideração. Produziu duas injustiças graves: uma social a ponto de 20% dos mais ricos controlarem 82,4% das riquezas da Terra e os 20% mais pobres devendo-se contentar com 1,6%; e outra injustiça ecológica devastando inteiros ecossistemas e eliminando espécies de seres vivos na ordem entre 70-100 mil por ano. Este sistema quebrou, em 2008, exatamente no coração dos países centrais.

O comunismo chinês é sui generis: pragmaticamente, combina todos os modos de produção, desde o uso da força física das pessoas, dos animais, até a mais alta tecnológica, articulando  a propriedade estatal com a privada ou mista, desde que o resultado final seja uma maior produção com mínimo sentido de justiça social e ecológica.

Mas importa reconhecer que está crescendo o convencimento bem fundado de que o sistema-Terra limitado em bens e serviços, pequeno e superpovoado, já não suporta um projeto de crescimento ilimitado. Ele perdeu as condições de repor o que lhe tiramos, por isso se torna cada vez mais insustentável. Mas por ser  uma superentidade viva, a Terra reage de forma cada vez mais violenta: mudanças climáticas bruscas, furacões, tsunâmis, degelo, desertificação espantosa, erosão da biodiversidade e um aquecimento global que não para de aumentar. Quando  vai parar esse processo? Se continuar, para onde nos vai levar?

Somos urgidos a mudar de rumo, vale dizer, assumir novos princípios e valores, capazes de organizar de forma amigável nossa relação para com a natureza e para com a Casa Comum. O documento mais inspirador é seguramente a Carta da Terra, nascida de uma consulta mundial que durou oito anos, sob a inspiração de Michail Gorbachev e aprovada pela Unesco em 2003. Ela incorpora os dados mais seguros da nova cosmologia que mostram a Terra como um momento de um vasto universo em evolução, viva e dotada de uma complexa comunidade de vida. Todos os seres vivos são portadores do mesmo código genético de base, de sorte que todos são parentes entre si.  

Quatro princípios axiais estruturam o documento: o respeito e o cuidado pela comunidade de vida (1); a integridade ecológica (2); a justiça social e econômica (3); a democracia, a não violência e a paz (4). Com severidade adverte: “Ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a da diversidade de vida” (preâmbulo).

As palavras finais do documento apelam para uma retomada da humanidade: “Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a um novo começo. Isso requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Só assim alcançaremos um modo de vida sustentável nos níveis local, regional, nacional e global”(Conclusão).

Repare-se que não se fala de reformas, mas de um novo começo. Trata-se de reinventar a humanidade. Tal propósito demanda um novo olhar sobre a Terra (mente), vista como um ente vivo, Gaia, e uma nova relação de cuidado e de amor (coração), obedecendo à lógica universal da interdependência de todos com todos e da responsabilidade coletiva pelo futuro comum.

Este é o caminho a seguir que servirá de carta de navegação para a nave-Terra  aterrissar segura num outro tipo de mundo.

Leonardo Boff participou da redação da Carta da Terra.

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