Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

Leonardo Boff

Quanto de sustentabilide aguenta a economia vigente? 

Leonardo Boff * 

Três serão os grandes figurantes da Rio+20: os representantes oficiais dos Estados e governos, os empresários e a Cúpúla dos Povos. Cada grupo é portador de um projeto e de uma visão de futuro.

Os representantes oficiais, a considerar o Borrador Zero, repropõem o desgastado desenvolvimento sustentável agora pintado de verde. Esquecem, entretanto, de confessar que ele fracasssou rotundamente. Diz Gorbachov: “O atual modelo de crescimento econômico é insustentável; ele engendra crises, injustiça social e o perigo de catástrofe ambiental”(O Globo 8/6/2012). Os principais itens que sustentam a vida estão em degradação denunciou ainda em 2005 a Avaliação Sistêmica do Milênio o que foi repetido pelo recente relatório do Pnuma. O Borrador Zero da Rio+20 reconhece: “O desenvolvimento sustentável continua a ser um objetivo distante” (n.13). Mas parece não terem aprendido nada dos fatos. Em sua fé dogmática no desenvolvimento sustentável, que, no fundo, é crescimento material, continuam propondo mais do mesmo.

De forma contundente diz ainda Gorbacov: “Vinte anos depois da Rio-92 estamos rodeados de cinismo e, para muitos, de desespero”. Não teriam os agentes do atual sistema mundial sofrido uma espécie de lobotomia? Não sentem a urgência da ameaça ambiental. Preferem salvar o sistema financeiro e os bancos a garantir a vida e proteger a Terra. Esta  já está com os faróis no vermelho e no cheque especial.

Os empresários, fortes figurantes, estão tomando consciência do limites da Terra, do aumento populacional e do aquecimento global. Não esperam pelos consensos quase impossíveis das reuniões da ONU e dos governos. Mais de cem lideranças empresariais já se reuniram no Rio, antes do evento  formal. Pretendem criar o  G-0 em oposição ao G-2, G-7 ou G-20. Com certo autoconvencimento chegam a dizer: “Nós precisamos assumir o comando”. A agenda coletiva acertada vai na linha da economia verde, não como maquiagem mas como uma produção de baixo carbono e preservando o mais possível a natureza. Contudo, constituem apenas 1% da empresas com receita acima de US$ 1 bilhão como nos referiu recentecente o Financial Times. Dão-se conta de um problema ainda insolúvel dentro do atual  modelo: como articular sustentabilidade e lucro? Os acionistas não querem renunciar a seu lucro em nome da sustentabilidade. Esta acaba sendo tão frágil que quase  se esvai. Pelo menos, estes empresários viram o problema: ou mudam ou se afundam junto com os outros.

O terceiro figurante é a Cúpula dos Povos. Serão  milhares, vindos de todo o mundo: os altermundistas, aqueles que  querem mostrar o que estão fazendo com a economia solidária e o comércio justo, com a preservação das sementes crioulas, com o combate aos transgênicos, com a produção orgânica da economia familiar, com as ecovilas e as energias alternativas. Aqui se apresenta uma outra forma de produção e de consumo mais em consonância com os ritmos da natureza, fruto de um novo olhar sobre a Terra, com dignidade e direitos.

Para atalhar, diria: no primeiro grupo reina resignação; no segundo, inquietação; e no terceiro, esperança. Estimo o seguinte resultado da Rio+20:

A reunião formal da ONU vai aprovar a economia verde, mantendo o mesmo modo de produção capitalista básico. Isso dará o aval para as empresas fazerem negócios com bens e serviços naturais. Criar-se-á uma Organização Mundial do Meio Ambiente, na linda da Organização Mundial do Comércio. Os empresários irão pressionar os governos a não interfirem nos negócios da economia verde. Querem o caminho livre, pois se trata de uma economia de baixo carbono e, por isso, ecoamigável,  embora dentro do modelo vigente.

A Cúpula dos Povos irá lançar uma alternativa à Economia Verde com a Economia Solidária. Criarão articulações globais contra a mercantilização dos bens e serviços vitais como água, sementes, solos, florestas, oceanos e outros, entendidos como Bens Comuns  da Humanidade.

O salto rumo a um novo paradigma de sociedade planetária não se dará por ora. Mas será obrigatório face às crises socioambientais que se aproximam. O sofrimento coletivo nos dará amargas lições. Todos aprenderemos, a duras penas, o amor e  o cuidado à vida, à Humanidade e à Mãe Terra, condições para o futuro que queremos. 

* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é escritor. - lboff@leonardoboff.com

Tags: JB, MEIO AMBIENTE, coluna, economia, leonardo boff

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