Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Leonardo Boff

Economia verde versus Economia solidária

Leonardo Boff 

O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Através dele e nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A economia verde radicaliza esta tendência, pois como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón “ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas mas, também, sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bônus negociáveis  pelo mercado e pelos bancos. Destarte o texto se revela definitivamente antropocêntrico como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles e não a outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta. 

Resumidamente: O futuro que queremos, lema central do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este  se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto destes, não avançar é retroceder e fechar as portas para o novo. 

Há outrossim um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marron ou de verde, ela guarda sempre sua lógica interna que se formula nesta pergunta: quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres. Nesta guerra não possuímos nenhuma chance de vitória. Ela ignora nossos intentos. Segue seu curso, mesmo sem a nossa presença. Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nos quer dizer (pelos eventos extremos, pelos tsunâmis etc), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações mas não nos dita comportamentos. Estes devem ser inventados por nós mesmos. Eles somente serão  bons caso estiverem  em conformidade com seus ritmos e ciclos. 

Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos produzir, sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada  biorregião, destribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida. Ela ganha corpo hoje através da economia biocentrada, solidária, agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir  sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e consumodres numa verdadeira democracia alimentar. 

A Rio+92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório  Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para  seu campo, e assim distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava nela eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera. Isso não é superado pela ecocomia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), que produziu o texto teórico do Pnuma, Iniciativa da economa verde. Com isso, astutamente  descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e a mudança de olhar sobre o planeta  que possa projetar um  real futuro para a Humanidade e para a Terra. 

Junto com a Rio+20 seria um ganho  resgatar também a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial da ONU de 5-15 de julho de1972, em Estocolmo, na Suécia,  sobre o Ambiente humano, o foco central não era o desenvolvimento mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde.

Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é autor de 'Sustentabilidade: O que é e o que não é' (Vozes, 2012) e membro da Comissão Iniciativa da Carta da Terra. -  lboff@leonardoboff.com

Tags: boff, coluna, ecologia, Leonardo, segunda

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Comentários

1 comentário
  • Afonso César Braga Woyames

    Embora seja um cidadão comum,sem nenhum conhecimento acadêmico à cerca de ecomomia,mas sim,um praticante amante da natureza,ouso à opinar sobre o tema:se esses "documentos" pensados pela ONU nos diversos congressos,seminários ou encontros ,tipo;RIO+20,Estocolmo+40,etc...tivessem realmente a preocupação de beneficiar as populações da terra,não seria "lógico" convocar para que se reunissem,pensassem e propusessem soluções, em ordem crescente de prioridade:os indígenas que vivem em comunidades e mantiveram suas culturas,as pessoas que vivem no campo e que vivem do que plantam, as associações que defendem a natureza,os pesquisadores e as universidades que tratam diretamente dos temas envolvidos e,finalmente, as pessoas comuns que amam o planeta que vivem!Os políticos seriam apenas os executores do planejamento proposto.Acredito que isso seria um grande feito.

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