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Terça-feira, 19 de Junho de 2018 Fundado em 1891
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A difícil transição do velho para o novo

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A saída para as várias crises atuais não pode vir do sistema que as gerou. Bem dizia Einstein: "O pensamento que criou o problema não pode ser o mesmo que o solucionará". Somos obrigados a pensar diferente, caso contrário, não agiremos diferente, podendo pôr em risco o equilíbrio do sistema- Terra e a continuidade da espécie humana. 

O dramático de nossa situação reside no fato de que não dispomos de nenhuma alternativa ao velho, suficientemente vigororosa e elaborada, que o venha substituir. Nem por isso devemos desistir do sonho de um outro mundo possível e necessário. A sensação é que “o velho resiste em morrer e o novo não consegue nascer" (Gramsci). 

Mas por todas as partes no mundo há uma vasta semeadura de alternativas, de estilos novos de convivência e de formas diferentes de produção e de consumo. Ela ganha visibilidade nos Fóruns Sociais Mundiais e recentemente na Cúpula dos Povos pelos Direitos da Mãe Terra, realizada em abril de 2010, em Conchabamba,  na Bolivia. Para usar pontos de referência conhecidos podemos dizer: o futuro não passa por Davos mas por Porto Alegre. 

A história não é linear. Ela se faz pela acumulação de energias, de ideias e de projetos que, num dado momento produzem uma ruptura. Surge uma alternativa, supera-se a crise e começa uma nova história. 

Enquanto isso não ocorrer, temos que ser realistas. Com um pé estaremos dentro do novo para não sermos reféns do velho, e com o outro  seremos obrigados estar dentro do velho para atender as demandas humanas. Caso contrário, não evitaríamos um colapso sistêmico com efeitos dramáticos, o  que seria irresponsável. 

O grande desafio é como processar a transição de um sistema consumista que estressa a natureza para um sistema de sustentação de toda vida, que se harmoniza com a Mãe Terra e visa a uma distribuição equitativa dos bens. Há tempos, dialogando com o conhecido sociólogo belga François Houtart, um dos fundadores do Fórum Social Mundial, vimos alguns  pontos que poderiam ser concretizados mesmo sem a transição. Nós, do Sul do mundo, deveríamos ponderar o seguinte: 

Em primeiro lugar, ainda dentro do sistema vigente, importa lutar por normas ecológicas e regulações que preservem o mais possível os bens e serviços naturais ou tratem sua utilização de forma socialmente responsável e ecologicamente correta. 

Em segundo lugar, que os países do grande Sul, especialmente o Brasil, devemos rechaçar o neocolonialismo dos países centrais pelo qual  nos querem reduzir a meros exportadores de matéria- prima. Antes, devemos incorporar tecnologias que deem valor agregado aos nossos produtos, criemos inovações tecnologicas e orientemos a economia, em primeiro lugar, para o mercado interno e depois para o externo;  

Em terceiro lugar, que exijamos dos países importadores  que poluam o menos possível e que contribuam financeiramente para a preservação e regeneração ecológica das regiões de onde importam os bens naturais; 

Em quarto lugar, que cobremos uma legislação ambiental internacional mais rigorosa para aqueles  que menos respeitam os preceitos ecológicos e que se negam a reduzir os gases de efeito estufa e que introduzem medidas protecionistas em suas economias. 

O mais importante de tudo, no entanto, é buscar formar uma coalizão de forças a partir de todos os grupos possíveis ao redor de valores e princípios coletivamente partilhados, como os expressos na Carta da Terra, na Declaração dos Direitos da Mãe e no ideal do Bem Viver das culturas originárias das Américas. 

Destes valores e principios se espera a criação de instituições globais e, quem sabe, se organize a governança planetária plural que tenha como propósito preservar a integridade e a vitalidade da Mãe Terra, garantir as condições ecológicas do sistema-vida, o futuro de nossa civilização e uma paz duradoura entre os povos e com a Terra. 

Subjacente a este consenso está uma cosmologia da transformação que se opõe frontalmente à cosmologia da dominação ainda vigente. Por cosmologia entendemos a nova visão do mundo elaborada a partir das ciências do universo, da Terra e da vida que lança um novo olhar sobre a realidade. Assim, na nova cosmologia se entende a Terra como fruto do longo processo da evolução e de transformação que já tem 13,7 bilhões de anos, Terra que comparece como um superorganismo vivo que se autorregula e que articula os elementos fisicos, químicos e biológicos de tal forma que sempre se torna apta a produzir e reproduzir vida. Terra e Humanidade formam uma única entidade indivisível e complexa, como emerge da visão dos astronautas a partir de suas naves espaciais. O ser humano representa o momento consciente e inteligente da própria Terra. Por isso somos, como humanos, a Terra que sente, pensa, ama, ri, dança e venera. 

 Mas a Terra não produziu apenas a nós, senão toda a comunidade de vida, vale dizer, todos os outros  seres vivos. Com eles entretemos relações de interdependência e de complementariedade. Entretanto, só o ser humano possui uma dimensão ética: ele se torna responsável por seu habitat, a Terra; sua missão não  é a de senhor e de dono mas a de hóspede, cuidador e guardião. É de sua natureza intervir nos ciclos naturais; pode depredar os ecossistemas e assim fazer-se causador de desequilíbrios, como  o mais grave deles, o aquecimento global.  

Atualmente se transformou numa força geofísica devastadora, fundando o que alguns cientistas chamam de antropoceno: uma nova era geológica. Se não for contido, pode levar todo o sistema-vida a um impasse e deixar uma Terra devastada sem a presença da espécie humana. Para impedir que isso aconteça, impõe-se buscar uma nova forma de habitar a Terra e um outro paradigma de civilização. Os tempos o estão exigindo. Valham-nos as palavras de Chateaubriand: ”Nada é mais forte do que uma ideia quando chegou o tempo de sua maturação”.

Leonardo Boff é ecoteólogo e faz parte da Comissão Central da Carta da Terra



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