Lapa Nojenta
LAPA NOJENTA
Sábado, eu e meu marido resolvemos almoçar fora. Moramos na Av. Augusto Severo, considerada como rua do bairro da Gloria. Mas é colada na Lapa.
Entramos pela Joaquim Silva, em direção aos arcos da Lapa para almoçarmos no Flor de Coimbra, adega/bar muito antigo e de inspiração portuguesa. O bolinho de bacalhau de lá, que não é redondinho, é imperdível, delicioso, o melhor que já comi.
Mas o que me levou a escrever não foi a comida, que estava honesta e gostosa. O que me deixou chocada foi o caminho que fizemos de ida e volta ao restaurante.
Ao atravessarmos a rua da lapa, entrando na Joaquim Silva, já nos deparamos com um pequeno grupo de jovens meninas e meninos , cujos pais devem imaginar que estivessem dormindo na casa de algum amigo, mas não, estavam, ao meio-dia, a beber, com certeza em continuação à balada noturna, regada a êxtase, álcool, água e energéticos! Pobre juventude. A rua ainda cheia de latas, embalagens e copos de plástico e de garrafas-bolinhas de caninha da roça, e grandes sacolas com o lixo recém recolhido, aguardando o lixeiro, e exalando o cheiro nojento de cerveja azeda.
Sentados no meio-fio fétido, ainda sorviam suas bebidas ao lado de cocô de cachorro. Que degradante! É isso que os jovens chamam de legal, bacana, curtição, a noite na Lapa? Coitados.
Além um pouco, mais cocôs de cães, quiçá de humanos, e muito cheiro de mijo em cada arvore. Que lástima!
O calçamento com pedras enormes e antigas, quebradas, entortadas pelas raízes das arvores, poças d'água, carros em cima da calçada, concluindo-se que ao andar vc deve se desviar dos obstáculos, sendo impossível manter uma conversa lado a lado, ou simplesmente olhar o casario antigo que, diga-se de passagem, está nas ultimas, caindo aos pedaços.
Ao chegarmos na escadaria vermelha, enfeitada com cacos de azulejos, que está cada vez mais vermelha, vimos muitos turistas, fotografando-a, para lá levados por guias turísticos. Senti muita pena deles. Foram sujeitados a ver um casario caindo aos pedaços, mal cuidado e a tal escada cafona, com uma enorme poça de água de esgoto fedorenta aos seus pés. Coitados. Eles não mereciam esse engodo. Nem nós, moradores. Aliás, observando-os, não vi neles nenhuma admiração, nenhum olhar de "que coisa interessante". Porque será?
Na volta do restaurante, que fica quase na esquina da poça, rua Teotonio Regadas com Joaquim Silva, caminhamos um pouco pela rua da Lapa e entramos na rua Marques Rebelo. E continuamos a assistir à degradação humana, ao vivo e a cores, com uma mulher se deitando para dormir na porta do restaurante Ernesto, outro jogado na calçada ao lado do prédio do Banco do Brasil, e o cheiro dos ralos fétidos e entupidos de folhas, papéis e bitucas e água podre.
Gostaria que o prefeito e o governador dessem uma caminhada-surpresa por aqui, de dia e de noite. E a presidente também, que anda apaixonada pelo Rio, fazendo política. A surpresa será imensa.
Laura de Saint-Brisson Ferrari
