Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017

Colunistas - Juventude de Fé

Breves reflexões sobre a encíclica do Papa Francisco - Laudato Si (parte 2)

Jornal do BrasilWalmyr Junior *

O legado de luta pelo cuidado com o meio ambiente já deixado pelo pontificado do Papa Francisco, através de seus pronunciamentos e pela Laudato Si, reverbera de forma muito positiva a defesa da vida plena na sociedade. É nítido que a “capacidade de suporte das rupturas chegou ao limite, restando-nos agora a possibilidade única de construir alianças, unindo forças, quebrando paradigmas, superando fragmentações, e resgatando a visão sistêmica entre a transcendência, Sociedade e Natureza” (Siqueira, 2016).

A Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, em comunhão com as Igrejas Cristãs do CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), no ano de 2016, trouxe à tona o debate sobre saneamento básico como orientação para as discussões nas igrejas e nos espaços de sociabilidade onde estas atuam. Estando a sociedade Imersa em uma desvalorização da vida, observamos que “a violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos” (Papa Francisco, 2015, §2). Desse modo, a Campanha da Fraternidade 2016 deu enfoque à questão do cuidado e do direito ao saneamento básico para todas as pessoas, expressando o pensamento cristão de salvação coletiva do homem na história da sua existência, entendendo que esta existência se dá num ambiente que é comum a todos, “a casa comum”, como fez notar o Papa:

“Esta convicção não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento. Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude.” (Papa Francisco, 2015, §11).

O texto base da CF também nos permite compreender algumas dimensões primordiais para que o debate acerca do meio ambiente e do saneamento básico possa alcançar uma significativa parcela da sociedade. A primeira delas é a dimensão inter-religiosa da questão. 

Para se atingir a meta do bem estar desta “casa comum” (ambiência onde o ser humano habita), vê-se a necessidade do empenho da Igreja ser o agente que vai através do diálogo com todas as religiões e todos os que têm boa vontade se posicionarem conjuntamente para formar uma plataforma com maior poder de abrangência na promoção da justiça e do direito ao saneamento básico (CNBB,2016) 

Para tanto, o CONIC provoca as Igrejas a saírem de seus templos e irem ao encontro do diferente, do outro, para, a partir de uma unidade entre as diferentes culturas, religiões e correntes de pensamentos, mostrarem a preocupação com o saneamento básico no Brasil e com a proteção ao meio ambiente.

A proteção do meio ambiente deverá constituir parte integrante do processo de desenvolvimento e não poderá ser considerada isoladamente. Mas, ao mesmo tempo, torna-se atual a necessidade imperiosa do humanismo, que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o econômico, para uma visão mais integral e integradora. Hoje, a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente (Papa Francisco, 2015, §141).

Quando o CONIC nos faz pensar sobre a unidade das Igrejas cristãs, das diferentes expressões religiosas e das pessoas de boa vontade pela defesa do meio ambiente, também está nos impelindo a sair em defesa da dignidade da vida humana. O caso do saneamento básico, colocado em questão, deve ser estudado, pesquisado e debatido. É imprescindível uma democratização do acesso aos estudos de caso acerca do saneamento básico no Brasil para que saibamos como dialogar de forma técnica sobre as maneiras através das quais estamos construindo o futuro do planeta.

Na próxima coluna, continuaremos abordando algumas das impressões provocadas pela Laudato Si a cerca da defesa da casa comum, garantindo um foque maior na questão que envolve o tema do saneamento básico. 

*Walmyr Junior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atuou como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

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