Jornal do Brasil

Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

Juventude de Fé

Tu Vens, eu já escuto seus sinais (3ª semana)

Walmyr Junior*

Estamos nessa sequências de colunas apresentando um itinerário espiritual através de reflexões deste tempo do Advento, onde culminaremos na chegada do menino Deus no Natal. Essa experiência nos leva a mais amar e mais se dispor em servir a Deus e aos outros, fruto de uma experiência autentica com o projeto de Jesus, que nasce dentro da vida comunitária da família de Nazaré.

Nessa terceira semana queremos propor a reflexão a partir da vida daquela que foi escolhida para ser mãe de Jesus. Maria, menina que Deus amou e escolheu, nos permite olhar sua trajetória e sua oferta de vida como referencia de abandono de si para o cumprimento de uma promessa que fecunda a vida comunitária. Ou seja, Maria nos permite a compreender, através do seu sim, que a oferta de vida nunca é por uma beneficie pessoal, mas sempre, sempre por uma perspectiva comunitária.

Às vezes nos questionamos de como faremos esses laços e experiências comunitárias no nosso cotidiano. Lembramos sempre que muitas vezes nos afastamos das pessoas por não ter tempo de falar com o vizinho, de visitar um parente, de ir ao encontro de algum grupo ou coletivo. A vida individualista é pautada no egoísmo, no egocentrismo e as possibilidades da cultura do encontro vão se perdendo no dia a dia. Fazer a experiência do encontro é se permitir a viver as maravilhas de uma vida fraterna, repleta de amigos, com uma construção constante de laços que tendem a suprimir a solidão do egoísmo da vida só.

No evangelho de Lucas 1, 39 vemos a seguinte constatação: “Alguns dias mais tarde, Maria foi apressadamente às terras montanhosas da Judeia, à vila onde Zacarias morava, para visitar Isabel”

Maria é aquela que nos ensina a sustentar laços, a manter a unidade, à servir ao outro. Visitar Isabel, gravida de Jesus, não foi um sacrifício para Maria, mas sim uma prova de amor por sua prima, que já idosa, precisara de auxilio. Maria não ouviu um pedido de ajuda, simplesmente foi ajudar por ver que o outro precisa dela.

A vida pede da gente atitudes depreendidas, desinteressadas, sem pretensões. Estar despojado de interesses pessoais é o primeiro passo para estar em consonância com a lógica de uma vida em grupo, em família.

Num segundo momento, quero chamar a atenção de outra perspectiva que nos distancia da vivencia plena da vida comunitária. Vejamos a seguinte narrativa evangélica ainda pronunciada por Lucas.

"Alegra se cheia de graça o senhor está com você" ao ouvir isso Maria ficou confusa e se perguntava o que esta saudação queria dizer, o anjo lhe disse: "Não tenha medo Maria, porque você encontrou graça junto de Deus. Lc1, 27-28

As palavras sublinhadas acima descrevem a potencialidade da anunciação. Maria é a cheia de ‘graça’, porém ela não se coloca acima de nós por ser a mãe do salvador, pelo contrário, ela é aquela que serve e ensina a servir, para sermos como o Salvador ou nos aponta o caminho Dele e com Ele: “fazei tudo que Ele vos disser”Jo 2,5. Maria é mãe e sabe que não é maior que seu filho. Sua pedagogia é a ir sem esperar retorno, do dar sem esperar receber, da doar-se sem esperar que o outro faça o mesmo.

Porém, assim como Maria, vemos a potencia da graça de Deus com medo, insegurança, com grande perturbação, justamente por não entendermos o que essa ‘potencia’ pode proporcionar na nossa vida e na vida do outro. Temos a potencia de tirar a fome de um irmão de que mora na rua, de levar a alegria para uma criança no orfanato, de resgatar o sorriso de um idoso abandonado, de fazer as pazes com o parente distante e reatar laços familiares, dentre tantas outras coisas.

A potencia da graça só será compreendida quando entendermos que nossa vida se resume no ‘amar e servir’, como dizia Sto Inácio de Loyola. Peçamos ao Deus da vida que nessa semana nos inspiremos em sua mãe, para aprendermos mais sobre o que é dizer sim para a potencialidade da graça que também se dá nesse tempo do Natal.

* Walmyr Junior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atua como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ

Tags: Artigo, coluna, juventude, religião, walmyr

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