Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

Juventude de Fé

Quem te disse que o cabelo liso é o mais bonito?

*Walmyr Junior 

Em uma escola da Baixada Fluminense, um amigo meu, professor, presenciou um caso de racismo e veio conversar comigo.  Ele me contava que presenciou uma cena chocante de uma aluna da escola onde leciona que chorava absurdamente. Os professores tentaram conter o choro da menina, mas sem sucesso, convidaram meu amigo para tentar de outra forma acalmar a criança. Ela, negra com seu cabelo de negra e com o peso fora dos padrões de beleza que a sociedade deseja, e ele negro e gay, com as mesmas características da menina.  Ambos carregam sobre si um suposto estereotipo que contraria as normas da sociedade em que vivemos. 

Associado a esse tema a assistente social Fernanda Martins fazia alguns questionamentos em sua rede social na internet que me levaram a mais uma vez adentrar sobre esse tema. Descrevia ela: “Por que o cabelo liso e "perfeito" que é o mais bonito? Por que o corpo tipo da Barbie que é o idealizado por quase todas as mulheres do mundo? Por que as mulheres tem que se vestir cheias de apetrechos, maquiagens, roupas e sapatos super-incômodos e desconfortáveis?”

Arthur Barcelos, conselheiro Estadual de Juventude do Estado do Rio de Janeiro
Arthur Barcelos, conselheiro Estadual de Juventude do Estado do Rio de Janeiro

A reprodução de um padrão de estético de beleza é motivo de traumas em diversas gerações de crianças, adolescentes e adultos. Em diversas situações vemos pessoas desprezadas e excluídas da sociedade porque se encontram fora do padrão idealizado por uma mentalidade branca e eurocêntrica. 

O preconceito racial é um crime no Brasil, porém muitas falas reproduzidas por quem declara não ser racista vêm comprovando que este mal está tão permeado na sociedade que está a ponto de ser naturalizado. A vida das celebridades pode servir como exemplo. O espelho da beleza está na pessoa magra ou com um corpo ‘sarado’, com o cabelo liso e com a pele branca como um algodão. Com isso muitas meninas e meninos, como a aluna citada acima, sofrem por não se adequar ao padrão de beleza imposto que ensina como devemos ser e viver, enfim, embasado na padronização do público e na espetacularização da sociedade.

A artista plástica Dayse
A artista plástica Dayse

Arthur Barcelos, conselheiro Estadual de Juventude do Estado do Rio de Janeiro, é professor de Educação Física e fala sobre a sua identidade ao se lançar na contramão da sociedade: “Desde que assumi esse estilo mais natural eu me sinto muito melhor comigo. Hoje já é uma identidade e as pessoas me reconhecem pelo meu cabelo, mas já fui muito criticado. Diziam que eu era desleixado de mais, que não era apresentável. E essas críticas vinham de conhecidos, amigos, mas principalmente da minha família. O que já me levou a ter que cortar o cabelo umas duas vezes porque não acreditava, que como eu estava,não iria conseguir um sucesso profissional.”

Existe uma contra-cultura que inviabiliza a perspectiva cultural negra e afrodescendente  no Brasil. Essa consolidação de um estereótipo de beleza não fortalece da autoestima desse mesmo negro ou negra e leva-os a viver em meio de um complexo de inferioridade. 

Para a artista plástica integrante da Aqualtune - Associação de Mulheres Negras -Dayse Gomes, é preciso entender que “o cabelo é extensão da minha fala, que ele afirma minha identidade, que influencia esteticamente e politicamente outras mulheres e até crianças, são algumas das razões para sentir os dreads em mim”. Segundo Dayse “ainda existe uma visão negativa a imagem dos dreads por parte da grande maioria de pessoas. A referência de beleza é europeia e tudo que não contempla esta semelhança é dado como "feio" ou "ruim". Ou seja, estar inserido a um padrão em que todos se sintam "confortáveis", inclusive um não negro, é a todo momento ser mutilado. 

A assistente social Fernanda Martins
A assistente social Fernanda Martins

O sistema é racista e seus padrões nos oprimem e nos agridem por todos os lados. Seja no trabalho, no banco, em um restaurante, etc.. “Uma senhora não negra em um elevador, não parava de olhar para meu cabelo e para expressar o seu incômodo ao ver uma mulher negra com traje dito "executivo" e com dreads, falou para mim: ‘Você ficaria mais bonita se alongasse (alisasse) esses cabelos’, respondi imediatamente: ‘O seu racismo não suportou e por esse motivo, gratuitamente está me agredindo, mas recolha-se à sua insignificância e se cure’. Sai do elevador e nunca mais a vi.” Relatou Dayse sobre um caso de racismo que sofreu. 

Sabemos que muito foi feito, mas o mal do racismo, que se espalha sem parar pelos cantos, precisa ser erradicado. Marcela Ribeiro é Militante da MMM (Marcha Mundial das Mulheres) e diretora de Combate ao Racismo da UNE (Uião Nacional dos Estudantes) e afirma que o “racismo se manifesta de diversas formas, principalmente para nós mulheres negras, nos violenta a cada dia com a erotização no processo de mercantilização dos nossos corpos ou de forma mais sútil e cruel ao estabelecer determinados padrões de beleza que destroem desde a infância qualquer sopro de auto-estima. Não é necessário ter cabelos lisos, nariz afinados, lábios finos para ser considerada bonita, nem precisamos que revistas femininas digam que uma mulher negra é a mais bonita do mundo, como se fosse uma concessão e isso apagasse o histórico de opressão, milhares de anônimas Lupitas existem mundo a fora, e olhos não vendados pelo racismo sempre souberam reconhecer sua beleza”.

A beleza é uma construção social hegemonicamente racista, classista, machista e excludente. Uma pedagogia do belo e da estética deve ser uma pauta de luta fundamental para combater o racismo. Somos negras e negros em sua multiplicidade de formas, corpos, rostos e cabelos. Chegaremos a um tempo em que não nos verão como os 50 mais belos, mas sim como os mais de 100 milhões de negros e negras belos do Brasil. É esse desejo constante de ser livre de padrões e amarras sociais que meu amigo professor mostrou para aquela menina, que depois de um abraço e um beijo se recuperava do seu primeiro enfrentamento ao racismo nas escola.  

* Walmyr Júnior é professor. Integra a Pastoral da Juventude e trabalha na Pastoral Universitária da PUC-Rio. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Tags: coluna, fé, JB, júnior, juventude, walmyr

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