Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Juventude de Fé

Operação da PM no Alemão é sinônimo do terror para os moradores

Walmyr Junior*

A operação da Polícia Militar (PM) no último dia 16 no Complexo do Alemão só reforçou o que estamos denunciando há muito tempo: nenhuma autoridade policial se importa  com os moradores e suas vidas. Dos 40 mandados de prisão apenas um foi cumprido, outros 39 suspeitos não foram encontrados.

Quem sai perdendo com essa política de segurança pública é o morador da favela. A ocupação das favelas no Rio de Janeiro foi justificada com a possível melhoria da qualidade de vida da população local. Promessas com as inúmeras possibilidades, como as obras do PAC, obras de urbanização, segurança, saneamentos, escolas e outras ilusões, descem amargamente pela garganta dos moradores.

Ao conversar com dois amigos moradores do Complexo do Alemão sobre o ocorrido percebi que deveria fazer essas vozes ecoarem. Maria é formada em jornalismo e mora na comunidade desde que nasceu. Ouvindo ela falar pude perceber que a Maré vai sofrer com as mesmas ilusões que os moradores do Alemão sofrem até hoje. Para ela, as instalações das UPPs possibilitaram ao morador um sentimento de esperança e a crença em possíveis e reais mudanças, mas na medida em que foram se passando os dias, os moradores começaram a ver as obras permaneceram inacabadas e o sonho de uma qualidade de vida acabar.

Para o morador da favela, a entrada da polícia na comunidade sempre resultou no surgimento de uma guerra. Mas de forma explícita, quem está implantando a guerra é o governo. A UPP não é para a segurança da população, mas serve como justificativa de poder e assim dominar os territórios ocupados pelo tráfico de drogas.

Maria alega que “toda vez que tiver operação na favela nunca iremos mudar a reação de terror, pânico e medo.Sempre que caminhamos no nosso dia a dia por entre os policiais, somos vitimados, não há dia e nem hora certa. Vivemos uma total insegurança, os PMs são muito violentos, corruptos, e tem outros sem preparação alguma, e ainda há aqueles que só nos olham com ar de vingança e de repressão”.

Maria continua dizendo que a UPP se instalou na favela como único órgão do estado, e tiraram a liberdade de ir e vir da população. “Aqui acontece a proibição de bailes, pagodes ou qualquer tipo de festa que reúna muitas pessoas no mesmo lugar. Muitos moradores foram reprimidos ate mesmo em festa de aniversario de criança com total violência. A UPP mantém um propósito de dominar e não de dar segurança. Até mesmo os projetos sociais destinados a crianças e jovens daqui têm que ser coordenados por PMs. Até mesmo dos projetos existentes há muitas décadas os PMs querem tomar posse. Isso é legal? Vivemos muitas décadas sobrevivendo sem o poder dos órgãos do governo e a favela sempre conseguiu realizar seus projetos, mas todos somos vítimas. Moradores, trabalhadores, comerciantes, todos de alguma forma já foram atingidos negativamente com a instalação e a falsa segurança das UPPs”.

Para os moradores, acordar com voos rasantes de helicópteros e tiros desde a madrugada é abrir os olhos no meio da noite e se sentir em meio a uma guerra. “Isso não é vida, não somos respeitados, não temos nossos direitos garantidos, ficamos presos em nossos lares até que o som volte ao normal, que se escute o cachorro latir, o rádio do vizinho ligado, crianças brincando, pessoas conversando e pipa no céu. Fora isso ficamos presos, quem está dentro não sai e quem está fora não pode entrar”.

Para Fernando, auxiliar administrativo e morador do Morro do Alemão, as UPPs não são vistas como um projeto de segurança e sim como insegurança.

“Insegurança por quê? Sempre que há uma operação policial no morro, o principal medo dos moradores da comunidade é a bala perdida. Depois vem a abordagem policial. Policiais arrogantes, opressores e agressivos, muitas vezes aparentam estar até drogados. Por que a maioria dos homens que são mortos em incursões policiais são dados como traficantes. Por que será? Não será porque nossa polícia acha que todo morador de comunidade é traficante?”.

Fernando diz que as instalações da UPP trazem riscos para os moradores dessas comunidades. “Os bandidos sabem em quem estão atirando, conhecem todos no morro e os policiais estão fardados, os policiais atiram em qualquer um. Quero falar que antes das ocupações policiais, era difícil ter tiroteios, afinal a policia quase não entrava nas comunidades, a não ser para mandado de busca e apreensão ou outros tipos de operação. Com a polícia nas comunidades, esse panorama mudou, a qualquer momento pode começar um tiroteio por que as comunidades são dominadas pelos policiais e também pelos traficantes”.

O saldo da operação da última quarta-feira foi o esvaziamento de 10 escolas onde 4 mil crianças não foram para a sala de aula.

 

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro, assim como a equipe da Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Tags: coluna, fé, júnior, juventude, walmyr

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