Jornal do Brasil

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Juventude de Fé

De turista para turista: manual da Fifa sustentando preconceitos

Walmyr Junior

Vimos na ultima semana mais um capitulo das hostilidades  que nós brasileiros estamos sofrendo pelos pronunciamentos da FIFA  (Federação Internacional de Futebol Associado, em francês: Fédération Internationale de Football Association). A entidade divulgou mais uma edição eletrônica da revista “Fifa Weekly” em seu site, que contém uma reportagem intitulada “Brasil para principiantes”. 

A cartilha publicada por não brasileiros, traz um tom pejorativo e ofensivo sobre o comportamento que o turista da Copa do Mundo vai encontrar ao se relacionar com brasileiros a partir do dia 12 de junho, quando iniciará o Mundial com a partida entre Brasil e Croácia, no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Os 10 sub-tópicos (10 conselhos) que são descritos só alimentam o preconceito que está velado com dicas para “evitar mal-entendidos culturais”.

A Copa do Mundo é o segundo evento esportivo mais assistido no mundo, atrás apenas dos Jogos Olímpicos. A competição tem efeitos positivos sobre o crescimento econômico e de certos setores que são essenciais para o desenvolvimento do país-sede da copa. A construção e reformas de estradas, aeroportos, hotéis e infra-estruturas de um modo geral, vem re-configurando o nosso espaço territorial. O problema atrelado a esse crescimento é que junto com o padrão FIFA de futebol, vem o padrão FIFA de sociedade com seus preconceitos, ante-paixão,  prejulgamento, prenoção,  cisma, desconfiança, discriminação, hostilidade, implicância, intolerância  e rejeição.

A Fifa afirma que os brasileiros não são pontuais, não são educados, que somos promotores do caos e do ódio e que temos a desordem como filosofia de vida. De forma explícita a entidade afirma que não temos o ‘padrão europeu de ser’ e por isso o turista que vem para o Brasil deve ter ‘cuidado’ ao se relacionar com os brasileiros.

Será que o padrão FIFA orienta os turistas que virão ao Brasil para tomar ‘certos cuidados’ com os brasileiros que estarão dentro dos estádios ou  estão dando dicas para os turistas se relacionarem com o pobre brasileiro que vai assistir os jogos pela televisão e vai estar no transito , na fila, na praia, na padaria ou no botequim? 

A reportagem gera em nós uma grande repúdio, e ainda sentimos vergonha de ver que esse padrão está sendo reproduzido em nossa nação. A forma preconceituosa que os turistas do padrão FIFA vão seguir para se relacionar conosco, os brasileiros, só aumenta  a distância que as ruas estão tendo da Copa do Mundo. Sabemos que vai ter a Copa, mas para quem será essa copa é o questionamento que não sai da minha cabeça.

Veja os itens da cartilha:

Sim nem sempre significa sim:

Brasileiros são otimistas e nunca começam uma frase com a palavra “não”. Para eles, “sim” significa na realidade “talvez”, então, se alguém disser “Sim, eu te ligo de volta”, não espere que o telefone vá tocar nos próximos cinco minutos.

Horário flexível:

A pontualidade não é uma ciência exata no Brasil. Quando marcar um encontro com alguém, ninguém espera que você estará no lugar combinado na hora exata. O normal é contar com uns 15 minutos de atraso.

Contato físico:

Os homens e mulheres brasileiros não estão familiarizados com o costume da Europa de manter distância como norma de cortesia e conduta. Eles falam com as mãos e não hesitam em tocar nas pessoas com quem estão conversando. Numa boate, isso pode facilmente se transformar num beijo, mas isso não deve ser mal interpretado. Um beijo no Brasil é uma forma de comunicação não-verbal e não um convite para algo mais.

Fila:

Ficar pacientemente numa fila não está no DNA brasileiro. Numa escada rolante, por exemplo, o modelo britânico de formar uma fila de um lado não existe. Os brasileiros preferem cultivar o caos e, por vezes, alguém se arranja para chegar na frente.

Moderação:

Se você for a uma churrascaria que oferece tudo o que você pode comer e for com muita sede ao pote lembre-se de duas coisas: não coma nada por pelo menos 12 horas antes e coma em pequenas quantidades porque as melhores carnes chegam no final.

Sobrevivendo no trânsito:

Nas ruas, os pedestres são ignorados e mesmo nas faixas os motoristas não param para eles voluntariamente. O direito de ir e vir entre os motoristas simplesmente definido pela preferência do veículo maior.

Não há topless:

A imagem de mulheres com pouca roupa é comum no carnaval, mas isso não é o que você verá no Brasil no dia a dia. É certo que os biquínis brasileiros são menores que os europeus, mas as brasileiras nunca os tiram na praia, onde fazer topless é proibido e pode resultar em multa.

Experimente o açaí:

Os frutos da Amazônia fazem maravilhas: previnem rugas e têm o mesmo efeito de uma bebida energética. Algumas mordidas no intervalo podem ajudar até o mais cansado dos jogadores de futebol a recuperar a energia.

Espanhol não:

Os turistas que tentarem se comunicar em espanhol no Brasil terão a sensação de estarem falando com as paredes. A língua nacional do país e o português brasileiro, uma variante do português. E se você falar que Buenos Aires é a capital do Brasil, corre o risco de ser deportado.

Seja paciente:

No Brasil, as coisas são comumente feitas no último minuto. Então, todos os turistas devem ter paciência. Tudo ficará pronto a tempo. Isso vale, inclusive, para os estádios. A filosofia dos brasileiros na vida pode ser resumida com a seguinte frase: “relaxa e aproveita”.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro, assim como a equipe da Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ

Tags: coluna, fé, júnior, juventude, walmyr

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.