Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Juventude de Fé

Todo dia é dia de Negro

Walmyr Júnior*

Há 126 anos foi sancionada a Lei Áurea, que considerou ilegal a escravatura no Brasil. Sabemos que este fato não foi um heroísmo, mas, sim, fruto de longas batalhas e de uma grande pressão da opinião pública abolicionista. É nítido que ainda existem em nossa sociedade os escrúpulos da mentalidade escravocrata e racista. O navio negreiro que traficava os escravos vindos da África continua sendo ferramenta de opressão e repressão que aglutina a população negra dentro de uma senzala, hoje não mais caracterizada com o tronco e chibata, mas com cadeados de bicicletas, espancamento, tiros e humilhações.

O Racismo é uma questão estruturante das relações de poder no nosso país. Ele não se dá apenas pela questão biológica em si, mas nas relações sociais estabelecidas sob esta ótica, ou até mesmo justificadas pela visão fenotípica. O debate racial ganhou visibilidade no último período, devido à entrada deste na agenda política do país, e dos avanços das ações afirmativas.

Vemos que hoje a democracia racial está fadada ao fracasso teórico. O preconceito racial se acende na medida em que outros modos de distribuição de renda favorecem a população negra. Tiramos como exemplo as demarcações de terras quilombolas, o acesso à educação, as cotas raciais, as novas leis que obrigam o ensino da história da África na escola e, recentemente, a aprovação das cotas raciais para o serviço público. Essas políticas públicas mexeram nas estruturas que mantém o sistema funcionando, causaram um impacto inclusivo da população negra em espaços que lhe foram negados até pouco tempo atrás, elas estão empoderando a população negra do Brasil.

Em contraponto aos avanços políticos, vemos que uma das estratégias da classe dominante é exterminar esse individuo negro que "rouba o seu espaço" na sociedade. A centralidade assumida pela questão da criminalidade e violência é acompanhada por outras análises da conjuntura que nos caracterizam como sociedade. As ações repressivas e punitivas do Estado que age com o amplo apoio da população insegura, a criminalização da pobreza e da juventude, somados ao sucateamento do sistema de reabilitação social, que deveriam ser os nossos presídios, se conectam criando um cenário perverso e desumano onde a vítima sempre será o jovem pobre e na maioria das vezes negro.

Os jovens à mercê desse contexto tornam-se a principal ferramenta para alimentar um sistema criminoso que só quer nos destruir. O jovem usuário e dependente de drogas, por exemplo, sofre por não ter uma política de saúde e educação que possa orientá-lo, tanto para o consumo quanto para a recuperação da dependência química. O Estado por sua vez trata esse assunto como questão de segurança pública. Criminalizar as drogas, assim como tirar o jovem drogado das ruas, é limpar as calçadas para o turista ver como tudo é "belo" em nossas cidades.

A política de higienização da cidade tira o jovem, na maioria negro, das ruas à força. Impõe uma prática de remoção sem respeitar os direitos humanos daquele indivíduo, criminalizando-o ainda mais, impondo uma privação da sua liberdade para favorecer um suposto "bem-estar social".

Mas as drogas não são os únicos motivos da criminalização da juventude. Enfrentamos o desafio diário por uma educação de qualidade, as políticas educacionais não estão preparadas para educar. O professor é tratado como mercadoria, seus esforços não são reconhecidos e seu desdobramento para semear futuros é tratado como uma piada.

O ultimo Mapa da Violência (2013) revelou que para quatro jovens mortos por homicídios, três são negros. Compreendemos que o racismo enquanto fenômeno que oprime a população negra ampliando as desigualdades, impondo opressões concretas e promovendo extermínios e exclusões, é um elemento estruturante das relações que definem o acesso aos recursos, hierarquizam as relações de poder e condicionam pensamentos, ideias e instituições em nossa sociedade.

A importância de se pensar sobre isso está ligada ao valor que a nossa vida possui. O impulso de uma atitude imatura leva, diariamente, muitos à beira de um suicídio, ou até mesmo a ele. Hoje, na sua juventude, homens e mulheres, têm em suas mãos o presente e o futuro desta sociedade. Temos que pensar nas escolhas que fazemos. São elas que mostram os caminhos a ser seguidos hoje e amanhã.

Toda vez que vejo pessoas incentivando as práticas racistas, que têm por finalidade exterminar o jovem negro da sociedade, lembro-me daquele livrinho do Leonardo Boff chamado A Águia e a Galinha. Aquela metáfora perfeita de como uma águia dentro de um galinheiro reprime suas condições físicas de voar bem alto e alcançar o céu porque, durante tanto tempo no meio de tantas galinhas, ela não acredita mais que é uma águia. Embrutecidos pelo sistema violento do capital, nos vemos galinhas, reproduzimos o cocoricó todos os dias e esquecemos a nossa capacidade pra alcançar o céu e as nuvens, ou seja, a real democracia. Mas não somos galinhas!

Esta homogeneização imperialista que reduz o nosso discurso no "bandido bom é bandido morto" é discurso de galinha que só pensa no galinheiro pequeno. É esse o discurso de uma sociedade que está predisposta a exterminar a juventude negra sem reconhecer esse jovem como um dos seus pares. Não podemos aceitar o que vem acontecendo com a juventude negra de nosso Estado: 78% das mortes são de jovens negros. Não podemos assistir ao extermínio da juventude negra e nos conformar com este cenário. Não vamos comemorar a abolição, até porque ela não favoreceu os negros aos seus plenos direitos. Vamos reagir e organizar nossa luta contra o racismo.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro, assim como a equipe da Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ

Tags: Artigo, coluna, JB, júnior, walmyr

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