Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Setembro de 2014

Juventude de Fé

Uma noite com Eduardo Galeano 

Walmyr Jr.

Ontem o dia foi marcado por muita alegria e emoção. Estive diante de uma das maiores referências do pensamento filosófico e político-estrutural da América Latina. Fui presenteado com um aperto de mão e uma troca de olhares que transborda a transcendência da narrativa poética e realista de Eduardo Galeano. 

Eduardo Galeanao nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu, em uma família católica de classe média de ascendência europeia. É retratado em algumas de suas obras, como O futebol de sol a sombra(1995) seu sonho de se tornar um jogador de futebol, mas seus caminhos ganharam outros rumos. Já trabalhou como pintor de letreiros, foi mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. Com apenas 14anos vendeu sua primeira charge política para o jornal El Sol, do Partido Socialista. Em 1971 escreveu sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina.

Sua trajetória é inenarrável, mas é sobre a noite de terça-feira, 15 de abril de 2014, que quero falar. Eduardo Galeano acolheu o convite da Cátedra Unesco de Leitura e se predispôs a fazer uma fala curta e apenas um encontro informal para divulgar sua ultima obra ‘Os filhos dos dias’ com apenas 120 pessoas, capacidade essa do auditório da PUC-Rio. O que ninguém imaginava é que Galeano levou uma verdadeira multidão à PUC. Gente que queria ver, ouvir e tocá-lo, gente que de forma ensandecida se inconformou em não poder assistir ao grande mestre, pois a capacidade do espaço era pequeno. Conversei com pessoas de São Paulo, Minas Gerais, e dos mais variados cantos do Estado do Rio de janeiro, que estavam do lado de fora do auditório gritando e suplicando a produção do evento para entrar.  Em parceria com a organização da cátedra, garanti que poderia conter os gritos e acalmar a multidão, mas com a condição de darmos uma solução para o eventual problema. 

Galeano fala para uma multidão na PUC
Galeano fala para uma multidão na PUC

Fui levado a sério e consegui dialogar com os mais de 2 mil admiradores de Galeano e com os órgãos da Universidade para transferirmos o evento para o ginásio da PUC. Correria total, o evento tinha que dar certo!! Montamos uma pequena estrutura, com uma mesa improvisada, uma acústica de som com deficiências e antes de o escritor uruguaio ler trechos de “Os filhos dos dias”, o mais recente livro publicado, me satisfiz com um aperto de mão e um olhar de mestre disposto a satisfazer e alimentar nossas mentes e corações. 

Transcendendo fronteiras geográficas, o livro abraça a diversidade de povos e culturas de 1º de janeiro a 31 de dezembro, isso sem esquecer o 29 de fevereiro, que aparece somente de quatro em quatro anos. No formato de um diário escrito por muitos dias e muitas mãos, os episódios que ocorreram no México de 1585, no Brasil de 1808, na Alemanha de 1933 e em outras épocas e países, dedica-se a contar uma história diferente mas com características únicas. 

No site www.lpm-blog.com.br, li um relato escrito logo depois do encontro que deixo aqui como fruto de um esforço que valeu a pena. 

Por Caio Renan 

A partir de uma certa idade, eu adquiri o hábito de ler. Ler bastante. A enorme quantidade de tempo dentro de ônibus pelo Rio de Janeiro me deu bastante tempo pra exercitar o hábito. Daí, como qualquer um que conheça a obra dele, tornei-me admirador de Eduardo Galeano.

A visão latina, o viés político, poético, filosófico, o gosto pelo futebol… Tudo nesse gigante inspira admiração.

Cheguei a PUC, encontrei a Rebeca Letieri, pegamos as senhas e entramos no auditório. Esperávamos. Mas Galeano não é um qualquer. Além de genial e inspirador, é popular. Levou uma multidão à universidade católica. Multidão ensandecida do lado de fora. Evento movido pro ginásio. Ótimo, porque todos que queriam conseguiriam ouvir as palavras de sabedoria do uruguaio. No entanto, a aproximação que queria o amigo Gabriel foi perdida. Ainda tentamos nos aproximar. Mas o mau humor atestado por Gabriel e a veemência que Galeano disse a seu editor “Não vou dar entrevistas!” encerraram qualquer esperança de contato com ele.

Depois disso, sentamos e ouvimos. Rimos, pensamos, duvidamos (tudo precisa ser questionado, afinal), aplaudimos de pé e absorvemos o que foi possível.

Na hora de sair, a surpresa. Isso era o que eu procurava: algo pra me recordar do encontro com um ídolo, com uma mente que admiro. Quando descia uma escada, fecharam meu caminho para que Galeano passasse. Depois que ele passou, fui. No fim da escada, duas moças que sorriam de orelha a orelha disseram: “Muchas gracias, Galeano!”. Ele se virou tranquilo. Sorriu, pegou a mão da primeira, deu um abraço. Repetiu o ritual com a segunda. Fez o mesmo comigo. Riu de novo. Agradeceu. E seguiu viagem.

Pode ser bobeira minha. Idolatria desmedida. Mas ganhar um abraço e um aperto de mão de um cara que escreveu obras que moldaram minha mente e tantas outras… Pra mim, foi algo que não vou deixar de lembrar. O riso de um cara que trazia um semblante tão mau humorado antes de receber o calor daqueles admiradores todos, o agradecimento e a simpatia… Vou lembrar.

Hoje, o corpo é festa.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro, assim como da equipe da Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Tags: coluna, fé, júnior, juventude, walmyr

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