Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Juventude de Fé

Ditadura militar: um fantasma que ainda nos assombra

Walmyr Júnior *

Hoje fazemos luto pela memória dos inumeráveis desaparecidos, assassinados, espancados, sequestrados e exilados que sofreram com as amarras da ditadura militar no Brasil. Os ecos dessa ditadura militar ainda ressoam nas ruas das cidades e sofremos com seus desprezíveis resquícios. O medo e a insegurança, frutos do impacto do golpe civil-militar, que em 1º de abril completa 50 anos, se assemelham muito ao mesmo medo e insegurança que ainda vivemos.

O golpe, arquitetado durante meses por integrantes das forças armadas, da sociedade civil, empresários e a grande mídia, instaurou uma ditadura que durou 21 anos no País. O anúncio do golpe foi justificado pela possível instalação de um regime comunista no Brasil e está ligado à estratégia de frear as reformas de base anunciadas por João Goulart no comício da Central do Brasil no dia 13 de março, Dentre as propostas estavam as reformas nas áreas bancária, fiscal, urbana, administrativa, política, agrária e universitária. 

Mas sabemos que não foram as reformas que implicaram no golpe, mas sim um ímpeto orquestrado pela alta sociedade com medo de que as reformas possibilitassem uma redistribuição de renda e o pobre tivesse a possibilidade de ocupar os espaços de decisão do país. A não redemocratização do Estado foi e ainda é um obstáculo que sustenta a desigualdade social. Vemos os fatos que nos circundam, ou melhor, circundam as favelas e periferias das capitais brasileiras. 

O fantasma do preconceito social e racial é a antiga e atual ferramenta de exclusão. O negro e o pobre são vistos como um mal social que devem ser punido só por existir, que deve ser excluídos da sociedade, senão encarcerado onde ninguém consegue ver. No retrato do progresso vemos as digitais do sistema ditatorial ainda vigente, onde o inimigo da vez continua sendo o pobre e o negro. São eles que devem ser exterminados da sociedade. Não é à toa que o estereótipo do individuo subversivo que é criminalizado tem uma classe e uma cor.

A opinião pública que criminaliza o pobre e o negro é a mesma que apoiou o golpe militar, e de fato, é a mesma que defende a violência policial nas favelas como instrumento de pacificação da ‘ordem pública’. 

Com as características históricas do racismo institucional, espelhados na desigualdade social, vemos o aparato de segurança do Estado impedindo o direito de ser livre. Assistimos às grandes repressões bélicas impostas à juventude durante as manifestações de junho de 2013. Acompanhamos a reprodução da lógica da ditadura em um presente vivo. 

O fantasma que assombrou os porões da ditadura continua causando medo na população. As manifestações populares foram rechaçadas através da força policial. Vimos nos últimos meses estudantes, professores, sindicalistas, e tantas outras classes, sendo tratados como um lixo, sendo agredidos por serem livres, espancados por almejarem direitos, sendo encarcerados por protestar. 

As forças militares diziam que o Brasil corria o risco de se transformar em um regime comunista como o de Cuba ou da antiga União Soviética. Cinquenta anos depois, o argumento ainda é usado para justificar o governo civil-militar, que reprime, tortura e mata quem ousa se opor à ordem instalada à força.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

Tags: Carnaval, coluna, fé, juventude, walmyr

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