Jornal do Brasil

Terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Juventude de Fé

Trote não combina com opressão

Walmyr Júnior*

Em meio a mais um início de semestre acadêmico nas universidades do país alguns acontecimentos nos chocaram. Não falo somente dos acontecimentos que envolveram a Polícia e as manifestações nas ruas. Estou falando do bom e divertido trote que vem sendo deturpado por alguns grupos estudantis.

As imagens que circularam essa semana sobre os trotes nas universidades passaram do limite do respeito e da tolerância. Não podemos aceitar que em meio ao século XXI o machismo, racismo e homofobia sejam reproduzidos pelas entidades estudantis das universidades Brasil a fora.

Em diversos jornais vimos que as calouras da Faculdade Cásper Líbero foram obrigadas a fazer "sexo oral" com frutas e legumes no trote universitário em meio da Avenida Paulista. As meninas foram obrigadas a simular sexo oral com bananas ou pepinos durante o trote realizado na ultima segunda-feira (10/02).

Vimos também uma infeliz cena de um calouro amarrado á um poste simulando uma apreensão de justiceiros, como aconteceu com um jovem negro na cidade do Rio de Janeiro. Ano passado foi relatado o caso das meninas que tiveram que beber bebida alcoólica em um funil com formato de pênis na UFMG, além da cena grotescade uma delas aparecer acorrentada, pintada com tinta preta e uma plaquinha pendurada no pescoço com os dizeres “Caloura Chica da Silva”, evidenciando uma ridicularização das mulheres negras e fazendo menção a escravidão.

Segundo Priscila Borges, Diretora de Mulheres da UEE “Os trotes machistas, racistas e homofóbicos precisam ser desnaturalizados, cultivou-se uma cultura de que certo tipos de “brincadeiras” ditas de “integração” são normais, e necessárias para socialização entre calouras/os e veteranas/os. Existe opressão na universidade assim como na sociedade que está fora desses muros, mas esta universidade deve ter o papel de transformar essa sociedade combatendo as desigualdades que a estruturam, e não reproduzindo as opressões. É papel hoje dos coletivos auto-organizados bem como da diretoria de mulheres da União Estadual dos Estudantes (UEE) enfrentar a violência vivida tanto física quanto psicologicamente, principalmente pelas mulheres nos trotes universitários.”

Em nota divulgada no Jornal PUC-Urgente, o Professor e Vice- Reitor Comunitário da PUC-Rio , Augusto Sampaio, fala da importância da atividade como o trote, mas sinaliza para os veteranos/as qual a real importância do trote na universidade:

“Aos veteranos cabe um acolhimento solidário, respeitoso e alegre, afinal, os calouros estão iniciando uma nova e importante etapa das suas vidas. Esse ritual merece ser comemorado. E certamente o tradicional trote é uma dessas manifestações. Queremos sugerir aos veteranos que se pautem por um comportamento ético e que respeitem o ambiente humano e natural da nossa especial paisagem universitária”.

Para Anderson Carvalho, estudante de Direito e Militante do Coletivo Enegrecer “Os trotes racista mostram o quanto a universidade ainda tem em sua raiz, o atraso em torno dos estudantes, em respeitar as diferenças, uma pratica que já vem da historia do nosso país, temos que lutar contra o racismo na universidade, ainda mais depois das cotas que democratizou o acesso, temos também a tarefa política de repudiar todos os atos dessa Natureza”.

Para que isso aconteça precisamos construir uma universidade Igualitária, esse é o papel do movimento estudantil brasileiro. A nossa luta é por uma universidade pública, gratuita e de qualidade que não tenha nenhuma forma de opressão. Precisamos lutar por uma nova cultura política na Universidade.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

Tags: a, Brasileiro, estudantil, luta, movimento, nossa

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