Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Juventude de Fé

Só não vai ter Copa do Mundo para o pobre e favelado

Walmyr Júnior*

O aumento do preço dos ingressos ao longo dos anos é um dos principais fatores que mantêm o torcedor da periferia longe dos estádios. De acordo com a pesquisa do instituto ‘Pluri Consultoria’, os ingressos aumentaram 300% em dez anos. Já foi possível um dia assistir no Estádio o futebol arte de Ronaldo de Bento Ribeiro, Romário do Jacarezinho, Adriano da Vila Cruzeiro, Edmundo do Fonseca, e de tantos outros craques da bola que vieram das zonas periféricas.

Hoje o padrão FIFA impõe um sectarismo mediante a um abismo social nos estádios de futebol.  No Maracanã, por exemplo, é desesperador ver as cadeiras que ficam atrás dos gols lotadas (que tem ingressos mais baratos), mas completamente vazio nos lugares do centro do campo (mais caros).

Além disso, os alimentos e bebidas estão custando o dobro do valor que normalmente são vendidos nas ruas, bares e supermercados. Um cachorro quente, por exemplo, está na média de R$ 7,00 ou R$ 8,00, ou seja, o dobro do valor em uma lanchonete.  Em relação às bebidas, a cerveja sem álcool pequena e o refrigerante estão saindo aproximadamente R$ 6,00 á R$ 7,00.

O Maracanã, que recentemente, foi repassado à iniciativa privada - um consórcio formado pela empreiteira Odebrecht, a empresa IMX (de Eike Batista) e a americana AEG – está sendo freqüentado por uma torcida elitizada que tem uma cor e uma classe.

Antigamente os moradores da favela iam mais aos estádios. Antigamente a sensação de fazer o ritual dominical, de acordar cedo, prosear sobre a rodada do campeonato no boteco já com a camisa da sorte, abrir uma cerveja, ou refrigerante, brincar com o amigo sobre o jogo passado, comer um frango assado, pegar um trem lotado rumo ao estádio, encontrar o amigo da arquibancada duas estações depois, chegar e comprar uma bandeira do ambulante, e entrar para empurrar e jogar junto com os 11 jogadores do clube de coração, era a felicidade do torcedor. Hoje o ingresso para jogos do campeonato estadual chegam R$50 ou mais. É um absurdo para um trabalhador que possui tantas contas para pagar ainda ter que pagar um preço absurdo na entrada do estádio de futebol para ver seu time do coração jogar.

Sabemos muito bem que só não vai ter Copa para os pobres e favelados das nossas cidades. Nos estádios das 12 cidades que irão ter jogos do Mundial, apenas 30 % dos ingressos estarão a venda para a população, os outros 70 % estão assegurados para os grandes patrocinadores.

O Brasil por aderir o futebol elite, tira a possibilidade de o pobre ver seu filho jogando no estádio de futebol. Sim!  Alguém lucra em tirar o jovem jogador da favela para ser explorado fora do país. Alguém lucra com esse jovem quando ele volta ao país como um Grande jogador. Alguém lucra com o superfaturamento dos poucos ingressos a serem vendidos. Alguém lucra com 70 % dos ingressos da Copa do Mundo que estão nas mãos dos patrocinadores.

Só quem não lucra são os torcedores, que são pobres na grande maioria, que tem que buscar cada vez mais alternativas para continuar acompanhando o time do coração sem tirar o pouco dinheiro que lhe sobra e não fazer o seu bolso doer.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

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