Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

Juventude de Fé

Chega de ser um alvo: A intolerância religiosa tem que acabar

Walmyr Jr.*

O crescimento de uma religião nunca foi algo a me preocupar, mas a sua construção dentro da visão hegemônica de superioridade e ódio a outras religiões que me deixa inquieto. Foi através de uma visão de superioridade que se consolidou a exploração pelo povo branco ao índio e ao negro no Brasil, e é desta maneira que os terreiros de candomblé e umbanda são desde o tempo do Brasil colônia criminalizados e colocados como uma ameaça a sociedade com suas 'macumbas'.

O ato de intolerância religiosa, seja no nível psicológico, físico e institucional, é um desrespeito a religião do próximo. Ironizar ou ridicularizar a importância da cultura religiosa e suas devoções também é intolerância. O oposto da intolerância religiosa é respeitar as diferenças de credos e suas características, coisa que não vem acontecendo em nosso país.

O número de denúncias referentes à intolerância religiosa no Brasil, feitas pelo Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, aumentou de 15 em 2011 para 109 em 2012. Os principais alvos de discriminação são as religiões de origem africana, como candomblé e umbanda.

As religiões de matrizes africanas estão intimamente ligadas a história da resistência do povo negro durante a escravidão e também ligadas ao descaso que essa parcela da população sofre dia a dia pelo Estado. Hoje o simples uso das vestimentas ou objetos de identidade religiosa  já  coloca o praticante em uma situação de julgamento pela sociedade. Assumir sua origem, sua crença o coloca a margem do que querem que seja e siga.

Um fato que deve ser denunciado é a expulsão dos terreiros de candomblé e umbanda de praticantes das favelas do Rio de Janeiro. Esse é só mais uma expressão do racismo e da intolerância religiosa que se apresenta não de forma velada, como muitos dizem, mas bem explicita e que vai prejudicando a preservação da cultura do povo que construiu e constrói o nosso país todos os dias.

A intolerância religiosa em muitos casos abre um negativo caminho para a perseguição religiosa a níveis absurdos. No Brasil, um dos países que apresentam maiores números de diferentes religiões e credos, não pode ser tolerado atitudes de pessoas que usam o nome de Jesus para oprimir, condenar e até mesmo violentar o praticante das religiões de matrizes africanas.

Embora existam também atritos entre algumas religiões cristãs, eles acabam não sendo tão violentos porque essas religiões têm uma origem comum e compartilham os mesmos valores. No caso das religiões de matriz africana, a intolerância recebe outra dimensão e resulta em violência, como no depredamento de casas, espancamento de pessoas e até mesmo assassinatos.

Não podemos negar que no Brasil, exista um histórico de negação das tradições não cristãs. Existe aqui dois casos que são interessantes avaliar. Essa negação não é somente da religião, ou do valor de todas as tradições de matriz africana. Podemos ver o racismo camuflado nesse preconceito e a intolerância é a cartilha da vez. Uma religião que descende do povo negro e que foi difundida pelos escravos no Brasil, não deve ser aceita pela população rica e branca.

Uma outra lógica que vem afirmar o capitalismo covarde, está ligado à perspectiva mercadológica. O mercado religioso, com seus altos dízimos e ofertas sem fim, alimentam uma luta de segmentos. É visível a necessidade de conquistar mais, e nessa busca certa parcela da população. Para ampliar seu mercado de fieis, e dessa forma crescer em dízimos e ofertas, é mais interessante fazer com que a religião do outro seja estigmatizada, desvalorizada e inferiorizada.

* Walmyr Júnior é graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

Tags: ampliar, da população, de fieis, para, parcela, seu mercado

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