Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Juventude de Fé

No cotidiano da violência 

Walmyr Júnior *

Com uma perspectiva de dar conta de elucidar a identificação das causas da violência nas cidades, entendo que o que está em jogo é uma complexa constelação de fatores. Desta forma, dialogo com o artigo “As Causas da Violência” da professora da UFBA Marilena Ristum, que transmite um debate efusivo a cerca do recrudescimento da violência no Brasil.

A autora identifica nos fatores sócio-econômicos e institucionais, possibilidade de relações dicotômicas. Neste caso temos a pobreza e criminalidade como consequência da ineficiência do Estado, que na verdade são maneiras de relações sociais que por ora são criminalizadas por não estar fazendo parte de um modelo de sociedade que tem a classe média como formadora de opinião. Ou seja, todo pobre da favela é criminoso ou conivente ao tráfico, logo o pobre é criminalizado sem mesmo ser um criminoso. 

Enquanto o pobre está sendo vitimado pela omissão do Estado, uma classe social que possui recursos para o acesso ‘alternativo’ a cultura, educação e saúde se beneficia do bem-estar social e do seu direito à cidade. Exemplos que afirmam que a miséria conduz a roubo e prostituição, ou que tem no desemprego ou a ausência de renda um caminho para a ilegalidade são reflexos dessa desigualdade, que segundo Marilena, é a percepção favorecida pela exaltação ao consumismo promovida pela televisão, e outros meios de comunicação resultando em frustrações que conduzem ao crime.

Segundo Ristum o “sistema escolar, especialmente o público, no qual as crianças ingressam tardiamente, não garante a transmissão de conhecimentos básicos” e na moradia cuja crise é agravada por políticas inadequadas que só fazem aumentar o número de desabrigados, formando uma população ameaçada e ameaçadora. É o oprimido que oprime e a lógica do sistema se alimenta por criminalizar esse indivíduo. 

Na condição de profissional da educação que sou, vejo nesse problema um eterno descaso. Um país que tem o orçamento de 30 bilhões de reais para a Copa do Mundo não consegue aparelhar as escolas com recursos básicos . A educação é tratada como uma mercadoria e os profissionais não são tratados com respeito. Vimos claramente nessa ultima semana de chuvas no Rio de Janeiro que a assistência à moradia que o Estado oferece não atende à população das favelas e da Baixada Fluminense.  

Engraçado pensar que a máfia dos planos de saúde e dos hospitais privados é sustentada pela mesma classe média que forma a opinião da sociedade e que criminaliza a pobreza. De um outro lado a saúde pública é precarizada, não tem recebido atenção e investimento de acordo com a sua importância, resultando em hospitais com falta de equipamento e remédios e imensas filas à espera de atendimento. Quem é assistido por esse Sistema de Saúde é o mesmo pobre que é criminalizado. 

Pequenos elementos aqui tratados tencionam o cotidiano das famílias brasileiras, quando percebemos que essa maioria é negra e pobre e vive em meio a uma subordinação aos brancos e ricos. Vamos continuar dialogando sobre o recrudescimento da violência e apontando fatores do dia a dia que configuram uma ótica racista e segregacionista, que obtém na lógica social do capital a exclusão e opressão. 

* Walmyr Júnior é graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Tags: Artigo, coluna, fé, JB, juventude, walmyr

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.