Segunda-feira, 18 de Junho de 2001
Auditor do BC acusa Jader de desvio

Autor de relatório diz que senador embolsou rendimentos obtidos com aplicação de R$ 10 milhões retirados do Banpará

MAURÍCIO LIMA

BRASÍLIA - ''Estou pronto para explicar o meu relatório aos parlamentares. Se me deixarem falar, não restará mais dúvidas. Os beneficiários das aplicações do Banpará são o senador Jader Barbalho, seus familiares e empresas de sua propriedade'', afirmou o auditor fiscal do Banco Central, Abrahão Patruni Júnior, autor do relatório sobre o desvio de R$ 10 milhões, em valores atuais, ocorrido no Banco do Estado do Pará (Banpará) quando Jader era governador.

Após dois meses de reclusão, ameaças de morte, punição no BC e até um grampo, Patruni decidiu falar com exclusividade ao Jornal do Brasil. Ele reafirmou que o relatório de número 9200047419 é uma bomba contra o senador Jader Barbalho (PMDB-PA). ''Basta ler'', disse. Segundo Patruni, entre os anos de 1984 e 1987 o então governador Jader Barbalho montou uma operação engenhosa que desviou dinheiro do Banpará para uma conta no banco Itaú, agência Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Uma parte desse montante voltava para os cofres do estado e outra era retirada em cheques ao portador. A parte retirada correspondia exatamente à correção pelas perdas inflacionárias, num tempo em que a inflação variava entre 30 e 40% ao mês.

Rastreamento - Ao rastrear o caminho desses cheques, Patruni concluiu que o desvio chegou a R$ 1 milhão e há fortes indícios do envolvimento de Jader. Registrou tudo isso no relatório 9200047391, de 209 páginas, que foi divulgado na imprensa em 1996. Na época, Jader queria pressionar o governo com a CPI dos Bancos. Houve então uma orientação no BC para que Patruni terminasse rapidamente o relatório. A intenção era ameaçar Jader e fazê-lo desistir da CPI dos Bancos. A chantagem funcionou.

A investigação, no entanto, prosseguiu. Patruni foi percorrendo todo o caminho dos cheques e descobriu que o montante do desvio era dez vezes maior, R$ 10 milhões, e que o dinheiro ia para contas de empresas de Jader, de seus empregados, do pai do senador, Laércio Barbalho, seu atual suplente, e de Elcione Barbalho, ex-mulher de Jader e deputada pelo PMDB.

Contas - A grande surpresa ainda estava por vir. Patruni descobriu duas contas de Jader no esquema fraudulento: uma também no Itaú e outra no Citibank. No relatório, consta o extrato de uma aplicação no valor de R$ 500 mil feita por Jader no Citibank e alimentada pelo desvio de recursos do Banpará.

A vida de Patruni, 43 anos, mudou muito desde que o caso Banpará voltou à cena, em março deste ano. Funcionário com mais de 20 anos de experiência, ele estava no ostracismo desde a divulgação do primeiro relatório. Dos auditores que participaram da operação, ele foi o único que quis assinar o documento. Os outros desistiram.

Ameaças - Desde o ano passado, Patruni estava emprestado ao Ministério Público Federal do Paraná, para ajudar a desvendar casos de sonegação fiscal e evasão de divisas. Teve uma vida tranqüila em Curitiba até a imprensa noticiar a existência do relatório que incrimina Jader. Patruni passou a receber ameaças de morte em telefonemas anônimos dados de orelhões para sua casa e para o trabalho. Logo depois, foi chamado à sede do BC, em Brasília, para ouvir uma repreensão de três horas, dada pela diretora de Fiscalização e Controle, Teresa Grossi. Ele foi proibido de dar qualquer qualquer declaração sobre o relatório.

A repreensão provocou uma licença compulsória e provavelmente a perda de uma gratificação a que teria direito. Mas as agruras ainda não tinham terminado. O telefone de Patruni foi grampeado. Um CD com 70 minutos de gravações circulou no Congresso. Mostrariam que Patruni repassava informações sigilosas a amigos, mas nenhum diálogo é muito claro.

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