Segunda-feira, 18 de Junho de 2001
Comemoração gay conquista paulistas

SÃO PAULO - Com diversas rainhas do apagão brilhando no meio da multidão, calculada entre 180 mil (segundo a Polícia Militar) e 250 mil pessoas (de acordo com os organizadores), a Quinta Parada do Orgulho Gay, realizada ontem na Avenida Paulista, conquistou de vez São Paulo e entra definitivamente para o calendário da cidade. Os protestos contra a discriminação sexual e o racionamento de energia imposto pelo governo foram feitos com muita música, alegria, plumas e paetês, contagiando as pessoas que desde cedo se reuniam pelas calçadas da avenida para acompanhar a manifestação, que começou às 14h e terminou quase oito horas depois na praça da República, local onde vários artistas se apresentaram.

Muitas organizações pelos direitos de gays e lésbicas davam seu recado na passeata mas o grande tema do ano foi mesmo o apagão: pelo menos cinco meninas se proclamavam rainhas do racionamento, cada uma com sua indumentária peculiar. Kenya, nome artístico de Paulo dos Santos, 25 anos, dava um show todo pintado de preto, com peruca encaracolada cheia de lâmpadas e muita ginga nos pés. ''Não adianta o Fernando Henrique querer apagar nossa luz! Eu sou mais poderosa!!'', berrava com sua voz grossa, dando na pinta sem muito se importar.

Hinos - A festa, como nos quatro anos anteriores, foi embalada ao som de muito techno, discoteca e hinos GLS como Macho Man e Its raining man . Elza Soares, Édson Cordeiro e Laura Finnochiario agitavam a galera que desfilavam cantando em cima do segundo caminhão de som da parada. Entre as palavras de ordem que puxavam, o ''Bichas, unidas, jamais serão vencidas'' era o que mais fazia eco na rua.

Ao longo da Avenida Paulista, o que se via era uma animação sem limites de gays, lésbicas, travestis, drag-queens e simpatizantes, muitos fantasiados. Um trio de freiras arrancava gargalhadas das pessoas que benziam com camisinhas e bandeiras com as cores do arco-íris, símbolo do movimento gay. ''Ser gay é um ato de amor e portanto religioso'', dizia Serena, que não perdeu a animação nem quando uma senhora se indignou com a brincadeira. ''Nossa, você não sabia que tem muito padre e muita freira gay por aí?''

Tranqüilidade - Cerca de 200 PMs fizeram a segurança do evento, mas nem uma ocorrência foi registrada pelos policiais. O grande temor era um possível confronto dos manifestantes com torcedores do Corinthians, que jogava a final da Copa do Brasil contra o Grêmio no Morumbi. Uma vitória corintiana poderia exigir a presença da tropa de choque, mas não foi preciso chamar reforço porque o Grêmio venceu a partida por 3 a 1.

Um casal de senhoras chamou a atenção no meio da multidão. Irene e Hélia, respectivamente 58 e 63 anos, dançavam animadas de mãos dadas por entre muitos jovens, arrancando elogios de todos. ''Temos orgulho do nosso amor. Infelizmente não é todo dia e em todo lugar que podemos mostrar isso na rua'', disse Irene, aposentada que há 15 anos vive com Hélia.

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