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70 anos: confissões de um presidente
FH grava depoimentos sobre o poder e faz piada até das crises que enfrenta
EXPEDITO FILHO
No depoimento à pesquisadora do Planalto, presidente e sociólogo estão juntos como os olhos de FH, ligeiramente estrábicos: um fuzila, o outro contempla. As gravações são feitas em fita de rolo, durante a semana, geralmente, no Palácio do Planalto. FH grava essas conversas como se já estivesse longe, no terreno frio e neutro da história. Fala com um padrão de franqueza absoluto, capaz de derrubar o seu governo, caso as fitas vazassem. Tem impressões para todos os gostos. Sobre o Congresso, a justiça, a mídia, empresariado e os políticos. Assim, ACM é visto como patrimonialista, um político que sobrevive graças à proximidade com patrimônio público.
É uma retrospectiva crítica de tudo que viveu, desde que retornou ao Brasil após o golpe de 64. Ao completar 70 anos, com uma cerimônia simples, restrita aos mais íntimos, FH envia, pela primeira vez, sinais de cansaço. O presidente já não tem o mesmo tônus de anos atrás. Entre as marcas que ficaram estão o cabelo mais branco, o corpo ligeiramente arqueado, pesando contra uma combalida coluna, que o obriga a nadar pelo menos três vezes por semana. A um ministro, a quem sempre costumava retornar pelo prazer da conversa, FH reclamou da insistência em resolver um problema em pleno domingo. ''Eu estava descansando'', queixou-se.
Mais que preocupado com o passar dos anos, FH está mesmo concentrado em terminar bem o seu governo. Avalia que a crise do racionamento de energia é passageira: tem hora e data para terminar. Sua torcida é a de que ela se encerre antes de maio do ano que vem. O pior, para ele, já está no retrovisor. Foi a desvalorização do real em 1999. Ali, o presidente sentiu que não é fácil governar um país como o Brasil, embora, com alguma arrogância, tenha alardeado o contrário. Até os diretores do Banco Central, que torraram bilhões de dólares para conter ataques especulativos, passaram por maus bocados. Alguns apresentaram desrranjos intestinais, outros dores gástricas, na queda de braço com os especuladores internacionais. Durante todo esse tempo, FH manteve um invejável auto-controle.
Uma outra marca que não perdeu foi o bom humor, sempre presente, até em momentos de crise. Piada, se for boa, vale. Mesmo que seja contra. Outro dia riu, quando soube que o deputado Benito Gama (PMDB-BA) e o assessor especial do Planalto, Moreira Franco, estavam em um restaurante disputando uma vaga de ministro de seu governo. Riu ainda mais quando soube que seria ministro aquele que perdesse no par ou ímpar.
FH não se abalou sequer com o término do casamento da sua filha mais próxima, Beatriz, que se separou recentemente de David Zylbersztajn. Como se diz com humor cáustico, típico do círculo de FH, a separação de uma filha nunca aborrece um pai. Não houve comemorações. O presidente sabe o quanto é difícil manter um casamento nos dias de hoje. O dele com a dona Ruth vai muito bem, apesar das apostas em contrário.
''Candidato do coração''- A escolha do sucessor preocupa e não está ainda definida. Ele preferia o ministro da Fazenda, Pedro Malan, porém rendeu-se à competência eleitoral do ministro da Saúde, José Serra. Tem ouvido da elite empresarial, ali, no pé do ouvido, segredado o nome de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo. Ao ministro da Educação, Paulo Renato, já disse o mesmo que diz a todos. ''Você é meu candidato do coração, viabilize-se'', entusiasma. Sobre o Itamar, mexe com os ombros, imitando o sotaque de um caipira mineiro, brinca. ''Pobrema seus'', assim mesmo, com erro de português. De um empresário, recebeu um conselho: ''Não faça o sucessor, mas comande sua sucessão e entre para a história''. Ouviu e calou.
FH acredita que muitos lhe darão às costas e poucos o acompanharão. Não tem ilusões. Divide o funcionalismo público entre gatos e cachorros. Os gatos são apegados aos palácios e gabinetes. Estão sempre agarrados ao poder, independente do ideário do chefe. Os cachorros entram e saem com o dono. São fiéis. Em Brasília, desde 1983, quando chegou, na condição de senador, FH soube diferenciar um tipo do outro. No Itamaraty, em 1992, deslumbrou-se com os salamaleques, banquetes e rituais. No convívio entre os punhos de renda, realizou um sonho de uma vida - a de ser chanceler apenas. No Ministério da Fazenda, FH conseguiu domar a inflação e implantar o real. O primeiro mandato na presidência foi uma maravilha, mas considerou incompleto. O segundo governo apontava para um mundo melhor, até que veio a desvalorização, o apagão, a seca e sabe lá o que pode ainda acontecer. Mas, nesses 70 anos de vida, o que se pode dizer é que FH foi um dos presidentes mais democráticos do ciclo republicano.
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