|
Poderosos, porém discretos
Quem são os superfuncionários que controlam milhões no Congresso Nacional
ANA MARIA CAMPOS E FABIANO LANA
BRASÍLIA -
Eles não têm mandato, mas são considerados mais poderosos que a maioria dos parlamentares. Vivem longe dos holofotes e perto do poder. À sombra, dominam nacos importantes da administração pública, mas são desconhecidos do grande público. Recebem um contra-cheque mais recheado do que o de deputados e senadores. Controlam orçamentos capazes de provocar inveja em muitos chefes até mesmo do Executivo. Essas figuras existem. São os sabinos do Congresso Nacional, uma referência ao mais poderoso deles, o ex-diretor geral da Câmara, Adelmar Sabino, demitido na semana passada.
No Senado, os sabinos tem outros nomes: Agaciel Maia, diretor-geral, Raimundo Carreiro, secretário-geral da Mesa Diretora, e Dirceu Teixeira de Matos, consultor-geral legislativo. Na Câmara dos Deputados, Mozart Vianna, secretário-geral da Mesa, e Sergio Sampaio, diretor-geral. Sob o comando desses funcionários estão as mais importantes estruturas do Congresso. O mais jovem deles, Sergio Sampaio, de 34 anos, que substituiu Sabinoi na semana passada, administrará um Orçamento anual de R$ 1,5 bilhão. Agaciel Maia, R$ 988 milhões.
Nenhum senador se arrisca a apresentar um projeto sem antes consultar a equipe comandada por Dirceu Matos. Poucas votações iriam para frente se não fosse o trabalho de bastidores exercido por Mozart Viana e Raimundo Carreiro.
Apartidários -Paparicados pelos políticos, os maiores funcionários do Legislativo possuem algo em comum: têm horror de ser chamados de mais poderosos que os parlamentares e negam veementemente qualquer vinculação partidária. Eles servem a Deus e ao Diabo. Questão de sobrevivência. Com essa postura discreta e eficiente, eles conseguem manter o cargo mesmo nas turbulentas mudanças de presidentes.
Mas não é fácil chegar lá. Por coincidência, quase todos trilharam um caminho árduo para chegar onde estão. Foram contínuos, datilógrafos. Subiram aos poucos. De subalternos, chegaram ao primeiro escalão do Legislativo. Os dois secretários das Mesas, o mineiro Mozart e maranhense Carreiro têm trajetórias parecidas. De famílias humildes, eles trabalharam como contínuos de lojas quando chegaram em Brasília. Carreiro lavava vidros e entregava sapatos para ''madames''. Mozart fazia pequenos serviços em uma loja de materiais de construção. Agaciel Maia se orgulha de ter se destacado como o datilógrafo mais rápido do Congresso, 250 toques por minuto. ''E naquelas máquinas antigas'', valoriza.
Paulista de Santos, Dirceu Matos tem história diferente. Chegou ao Senado depois de enfrentar um rigoroso concurso para consultor-legislativo, na área de discursos. E se gaba do setor que dirige: ''Aqui não entra nenhum recém-formado. Só profissionais experientes'', diz. E todos concursados.
Movimento -O gabinete de Mozart Viana é um dos lugares mais interessantes de todo o Congresso Nacional. A porta fica sempre aberta, basta entrar. Lá dentro, muitas pessoas em constante movimentação: assessores, secretárias e jornalistas em busca de informações. ''Nosso trabalho é de apenas assessoramento. Não considero o cargo poderoso. Não tenho a menor chance de exercer poder em um parlamentar. Estou aqui para servi-los'', afirma Mozart, que é responsável pela condução de todos os projetos que são levados à plenário.
Além de conversar com todos os presentes ao mesmo tempo, Mozart, de 50 anos, costuma estar ao telefone. Só há um momento em que ele pede para ficar só, quando fala com o presidente da Câmara.
''Estamos a disposição de todos. Como no parlamento há muitos interesses, nosso trabalho tem que ser altamente transparente'', afirma o secretário, no cargo desde 1991, quando a Câmara era presidida por Ibsen Pinheiro. Mozart também trabalhou com Inocêncio Oliveira (PFL-PE), Michel Temer (PMDB-SP) e Luiz Eduardo Magalhães (PFL-BA), morto há três anos, cuja foto ainda enfeita o gabinete do secretário. Nas sessões, Mozart está sempre ao lado do presidente da casa.
|