A crise argentina continua seu doloroso caminho, inúmeras vezes anunciado. Desde 1991, quando da aprovação da lei de convertibilidade e do conseqüente engessamento da moeda e da economia argentinas, não foram poucos os que anunciaram os riscos corridos pelos país, a médio e longo prazos: perda de competitividade, surtos recessivos, sucessivos ajustes fiscais, cortes dos gastos públicos e desemprego.
Supostas causas foram aventadas para justificar a inércia da política econômica. Entre elas, o trauma resultante do anterior processo hiperinflacionário, a dominância do pensamento neoliberal com sua sucessão de promessas (elevação da produtividade, ingresso massivo e eterno de capitais externos, sucessivos ajustes fiscais redentores) e o generalizado endividamento das famílias e empresas em dólar.
Os desdobramentos futuros da crise argentina ainda são uma incógnita. No entanto, qualquer que seja o seu desenlace, tudo leva a crer que será imposto in extremis pelo mercado, com as inevitáveis conseqüências sociais e institucionais decorrentes, e não resultado de uma opção nacional capaz de dividir os ônus e responsabilidades.
A economia brasileira sentirá o agravamento da crise argentina, ainda mais considerando-se a atual debilidade do país, seja devido à crise energética, ao grau de desestruturação produtiva, do mercado de trabalho e do Estado e, principalmente, à vulnerabilidade externa a que fomos submetidos pelas políticas econômicas do governo federal.
Neste quadro, mesmo antes da recente elevação do câmbio, a inflação havia aumentado, os juros em alta ampliaram a dívida pública (dívida líquida do setor público prevista para o ano de 53% do PIB, apesar da meta de 46,5% acordada com o FMI), ao passo que o crescimento econômico se reduzia mais uma vez, revertendo a pequena redução do desemprego ocorrida no ano 2000.
As conseqüências de um quadro dessa natureza se abaterão sobretudo sobre as grandes cidades brasileiras, que têm se constituído em depósitos de excluídos e barril de pólvora de demandas sociais insatisfeitas. As metrópoles brasileiras sofrerão os impactos da queda do crescimento econômico, da elevação da inflação e dos juros, com a conseqüente queda da arrecadação municipal e maior elevação da dívida pública, e acirramento do emprego e da exclusão social.
O governo federal insiste em fazer mais do mesmo: negocia a continuidade do acordo com o FMI, reduz gastos sociais, aprofunda a centralização fiscal e se nega a rediscutir termos de acordos de refinanciamento de dívidas municipais. Como se os desempregados e excluídos das grandes metrópoles brasileiras fossem responsáveis pela ausência de um modelo de desenvolvimento nacional e pelos descalabros da administração da política econômica.
* Jorge Mattoso é secretário de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo