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Tradição de malhar o Judas é mantida no bairro do Ingá

Costume herdado de portugueses e espanhóis virou desabafo social

Charles Rodrigues

Costume herdado de portugueses e espanhóis, a tradição de 'malhar o Judas' em praça pública se repete há 35 anos no bairro do Ingá, na Zona Sul de Niterói. Inicialmente criada para exorcizar as mazelas cotidianas na figura do traidor de Jesus, nos últimos anos a malhação do boneco ganhou uma forte conotação política e simbólica.

Morador do Ingá e um dos idealizadores da tradicional festa do sábado de aleluia, o ator e produtor de teatro Guga Gallo acredita que o ato de malhar a figura do homem que trocou seu mestre por 30 moedas de prata faz parte do folclore popular.

- Malhamos desde vizinhos chatos e jogadores de futebol a políticos desonestos. O bairro carrega essa tradição como uma forma saudável e criativa de protestar contra as figuras indesejáveis da nossa sociedade - conta o ator.

Para o funcionário público Felipe Policarpo Teixeira, 39 anos, a malhação do Judas representa uma espécie de catarse coletiva.

- Lembro que desde a infância acompanho meu pai nessa tradição. Já malhei o boneco do Serginho Chulapa, depois da Copa de 1982, o assassino Guilherme de Pádua e vários políticos. É um momento de desabafo social - lembra.

Embora o ritual remeta ao uma espécie de ''justiça popular'' o advogado Rodnei Cassio de Arruda Gomes, 40 anos, alerta para o perigo da violência exacerbada servir como apologia a outras formas de agressões, principalmente quando crianças estão presentes.

- É bom explicar aos meninos que essa tradição representa uma forma de repúdio a todos os traidores representados na figura do Judas. Evitar exageros e respeitar o próximo também devem ser lembrados durante a malhação - ressaltou.

Nas últimas três décadas, a malhação do Judas também chegou ao redutos da criminalidade. Segundo o delegado Anestor Magalhães, é comum, nessa época, os traficantes executarem homens acusados de delatores.

- Os bandidos costumam matar e pendurar seus inimigos em postes com a inscrição X-9, uma alusão aos traidores ou informantes da polícia - conta o delegado.


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[15/ABR/2006]


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