O filósofo da esquerda

[10/JAN/2004]

Aos 94 anos, morreu ontem, no Hospital Molinette de Turim - onde estava desde o dia 27 com irreversível crise respiratória - o filósofo, escritor e senador vitalício Norberto Bobbio, considerado a consciência crítica da esquerda italiana e um dos pensadores mais destacados do século 20, especializado em política e direito. Enviuvara recentemente, depois de 60 anos de casamento, e havia três meses fora afetado profundamente pela morte do filósofo e historiador Alessandro Galante Garrone, seu grande amigo.

- Bobbio era a consciência democrática deste país - proclamou Piero Fassino, líder dos Democratas da Esquerda, maior partido de oposição italiano e sucessor do Partido Comunista da Itália. E o presidente italiano, Carlo Azeglio Ciampi, referiu-se ao filósofo como o ''mestre da liberdade''.

Desde 1984 Bobbio era senador vitalício da Itália, nomeado pelo então presidente Sandro Pertini (1978-85). E há cerca de uma década tinha sido considerada a possibilidade de se indicar seu nome para a Presidência da República - um cargo de relativamente pouco poder político na Itália mas de grande autoridade moral.

Bobbio nasceu na cidade industrial de Turim, em 18 de outubro de 1909, e nos anos 30 formou-se em filosofia e direito, na universidade local. Em suas salas de aula, e durante décadas, ele lecionaria depois, com brilho extraordinário, filosofia do direito, ciências políticas e filosofia da política.

Quando tinha 26 anos, chegou a ser preso por ter se oposto ao regime fascista. Mas, nos anos 90, quando foram abertos alguns arquivos do tempo desse regime, pesquisadores encontraram uma carta que Bobbio escrevera a Benito Mussolini (1883-1945) e na qual elogiava o fascismo. O filósofo explicou que essa fora a única forma encontrada então por ele para salvar sua vida.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), atuou no movimento de resistência antifascista e integrou o Partido de Ação, grupo de radicais de esquerda que mais tarde ajudaram a moldar a política pós-guerra. Em 1975, iniciou também, em seu país, um debate sobre socialismo, democracia, marxismo e comunismo, o que muito influenciou as novas gerações de toda Europa.

Bobbio escreveu para vários jornais e revistas, incluindo o Corriere della Sera, principal diário do país.

Ao longo de sua carreira, escreveu centenas de livros, ensaios e artigos. Um de seus livros mais importantes, Política e cultura (1955) vendeu mais de 300 mil cópias na Itália e foi traduzida para 19 idiomas. O ensaio Direita e esquerda (1994), publicado em português pela editora Unesp, foi também uma de suas obras mais vendidas.

Ultimamente, passara a desinteressar-se de problemas políticos conjunturais e ocupar-se cada vez mais de questões universais, como a viuvez, a violência, a morte etc. E há poucos anos publicou sua Autobiografia.

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