Plenário de Haia derruba moção dos EUA contra o brasileiro, mas governo Bush retomará ataque pedindo nova reunião
O diretor-geral da Organização para a Proscrição de Armas Químicas (Opaq), José Maurício Bustani, venceu ontem mais um
round - não o último - em sua luta para permanecer à frente do organismo das Nações Unidas. Uma moção de não-confiança contra o diplomata brasileiro apresentada pelo próprio presidente americano, George Bush, foi derrotada ontem em Haia pelos 41 países-membros do conselho executivo do organismo.
Inicialmente pensava-se que Bustani teria atraído a antipatia da Casa Branca apenas por ser um obstáculo à ofensiva contra o Iraque, mas fontes americanas íntimas dos bastidores da Opaq garantem ao Jornal do Brasil que há muito mais em jogo. A Rússia e o Irã são dois países que também preocupam Bush - e a postura branda de Bustani em relação a eles e ao Iraque tem deixado os EUA profundamente insatisfeitos.
Apenas 17 países concordaram com a moção de Bush, 10 a menos que o número necessário para levar adiante o processo e provocar a convocação, em 30 dias, de uma assembléia com todos os 145 países-membros da organização. Fontes do Itamaraty afirmaram que a diplomacia brasileira ''empenhou-se até a alma'' para defender o brasileiro, especialmente depois que Rússia, China e Índia declararam apoio. A vitória, contudo, está longe de ser definitiva. Numa moção também derrotada, o Brasil propôs o diálogo dos americanos com a Opaq e a avaliação de suas atividades por uma comissão independente. Os EUA prometeram voltar à carga em breve, buscando a criação de uma comissão especial para resolver o assunto.
Bustani voltou a afirmar que não deixará o cargo a pedido de um ou poucos países. Garante que sua resistência é necessária para evitar que organizações internacionais sejam alvo de pressões similares no futuro.
Irã - Mas, ao contrário do que fontes do Itamaraty têm afirmado, a questão com Bustani não é nova nem impulsionada apenas pela campanha contra o Iraque. Envolve toda a estratégia americana da luta contra o terror. ''Eu diria que a coisa gira mais em torno do Irã que de Saddan'', opina um analista de Washington que pede anonimato. ''Lembre-se que em janeiro o subsecretário de Estado americano para Não-Proliferação e Segurança Internacional, John Bolton, destacou esse país como um dos principais produtores de armas químicas hoje'', diz ele, completando: ''mas realmente, se a Opaq conseguir mandar inspetores para Bagdá, a campanha de Bush fica um pouco esvaziada''.
Muitos ressaltam, contudo, que as reclamações americanas são antigas e podem, em certa medida, ter um fundo de verdade. A Opaq passa por sérios problemas financeiros - que os americanos atribuem a má administração e Bustani a problemas estruturais e falta de fundos. ''Eu não chegaria a chamar de má administração, mas os americanos não estão gostando nem um pouco do que vêem como sendo o proselitismo de Bustani em relação aos russos, por exemplo'', diz um ex-funcionário do Departamento de Estado consultado pelo JB.
''Além disso, depois de 11 de setembro, Bustani começou a querer aumentar seu papel na luta ao terror. Os EUA viram isso como o oportunismo de uma pessoa que sequer conseguia fechar as contas. De qualquer maneira, é muito atípica esta forma de ação'', completa. Outro diplomata avalia que a Casa Branca costumava ser mais discreta. ''Agora a coisa é pública. Virou uma briga política - o que não era necessariamente o caso e dificulta as coisas''.