Domingo, 16 de Setembro de 2001
Combatentes ditam a lei no Afeganistão

Os ''homens de Bin Laden'' não pagam aluguel, insultam estrangeiros e matam sem pestanejar nas ruas de Cabul

PHILIPPE GRANGEREAU

LIBÉRATION

AFP
Mulher afegã, usando sua burka, carrega o filho em campo de refugiados

Mulher afegã, usando sua burka, carrega o filho em campo de refugiados

CABUL - A cena ocorreu há alguns meses em Cabul. Nesta cidade de calçadas cheias de mendigos, aqueles que são chamados pelos afegãos de jihadis (combatentes da guerra santa), ou ainda ''os homens de Bin Laden'', freqüentam os melhores restaurantes da capital. Num desses estabelecimentos do bairro de Sher-e-naw, um grupo de aproximadamente 10 convivas janta com facões de combate e pistolas na cintura. Alguns usam uniformes cáqui. O jornalista ocidental sentado não muito distante é fulminado por seus olhares ameaçadores. O kafir (infiel) é abundantemente insultado em árabe, e as coisas só não pioram muito por causa da presença de funcionários talibãs que nos acompanham.

Os empregados do restaurante contam que esses clientes habituais são sudaneses e iemenitas, e que combatentes chechenos e argelinos também costumam freqüentar a casa. Eles desfrutam de uma verdadeira imunidade no país dos talibãs. Um dos empregados, que durante o regime pró-comunista de Najibulá era banqueiro, tem um estoque aparentemente infindável de anedotas. Meses atrás, um amigo seu, acompanhando na rua uma mulher de sua família devidamente coberta dos véus do islamismo mais radical, tentou interpor-se quando um grupo de jihadis tentou fazer a ela propostas indecorosas. ''Ele foi eliminado no ato e a polícia talibã que observava não moveu um dedo.'' Outros afegãos, proprietários bem de vida, queixam-se de que os jihadis não pagam o aluguel das residências que ocupam.

Riscos - Para um ocidental, é impossível dirigir a palavra a esses mercenários estrangeiros sem correr grave risco. ''Quando tentei falar com um jihadi argelino que estava telefonando a sua família numa sexta-feira, nos Correios de Cabul'', conta um membro de uma ONG que atua na capital, ''tive o maior medo da minha vida. Ele empunhou seu revólver e me perseguiu até a rua, me insultando em bom francês.''

As ONGs ocidentais, sem as quais a população afegã teria ainda mais dificuldades para sobreviver, costumam instruir seu pessoal em Cabul a não sair a pé pelas ruas da capital, para não se depararem com um deles.

Pouco depois do bombardeio americano dos campos de treinamento supostamente mantidos por Osama Bin Laden, em setembro de 1998, muitos combatentes árabes e muçulmanos instalaram-se em Cabul. Hoje, são milhares. Não pertencem necessariamente a uma das organizações de Bin Laden - Al Qaida (A Base) ou a ''55ª Brigada''. Esta última, composta de milhares de combatentes árabes ou originários de outros países muçulmanos, bem armados e aguerridos, constitui a ponta de lança dos talibãs. Ela desempenhou papel-chave, por exemplo, na última primavera setentrional, na tomada do distrito de Yakowlang, então nas mãos da oposição do Hezb-e-Wahdat.

Na realidade, uma dezena de outros grupos de jihadis árabes estariam combatendo ao lado dos talibãs, especialmente nas províncias de etnia dominante pachtum. Fontes relativamente dignas de crédito estimavam em fevereiro deste ano que entre 400 e 500 combatentes árabes vivem nos bairros residenciais de Sher-e-naw e Wazir Akhbar Khan, em Cabul, perto das instalações ocupadas pela ONU, a Cruz Vermelha e centenas de ONGs. E a opinião geral dos estrangeiros na capital afegã é que eles se tornam cada vez mais ameaçadores. ''Bem em frente aos prédios ocupados pela ONU há uma propriedade'', explicava em fevereiro um guarda da instituição. ''Há algum tempo, caminhões Toyota dos combatentes árabes entram e saem dessa casa regularmente, sobretudo de manhã bem cedo, quando eu faço o meu jogging. Quase sempre me insultam quando passo. Da última vez, um de seus caminhões foi atirado em minha direção, desviando só no último segundo.'' E concluiu: ''Eles estão constantemente nos observando, dão a impressão de que nos consideram reféns em potencial.''

Recrutamento - A presença de combatentes provenientes de países árabes em território afegão remonta aos primeiros anos da ocupação soviética. Os primeiros foram mobilizados pelos Irmãos Muçulmanos do Egito. Só mais tarde o recrutamento dos mujahedin se ampliou, com o aval dos Estados Unidos, ao outros países do mundo muçulmano, entre eles a Arábia Saudita - de onde é originário Osama Bin Laden.

Foi em 1996 que Bin Laden travou conhecimento com os talibãs, conseguindo então criar um exército de milhares de mercenários, cujos objetivos vão muito além das fronteiras afegãs. As madrassas (escolas corânicas) paquistanesas também enviam milhares de estudantes para reforçar as fileiras dos talibãs (4.000 desde janeiro, segundo diplomatas servindo no Paquistão). Muitos deles também dizem prestar obediência a Bin Laden. Eles parecem hoje atuar como um Estado dentro do Estado. ''Os não-afegãos, ou seja, os islamitas árabes e paquistaneses, passaram a fazer parte integrante do processo decisório dos talibãs'', explicava em agosto um funcionário americano na Far Eastern Economic Review. ''Não podemos aceitar isto.''

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