Terça-feira, 31 de Julho de 2001
Blair ataca barreiras agrícolas em Brasília

RODRIGO AMORIM ROSA E LUCIANO PIRES

BRASÍLIA - O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, vestiu ontem a camisa do Brasil na defesa da derrubada dos subsídios e barreiras agrícolas impostas pela União Européia (UE). ''Os subsídios agrícolas europeus estão ultrapassados e emperram o desenvolvimento da economia européia, além de prejudicar o Brasil'', afirmou o premier britânico, que esteve ontem com o presidente Fernando Henrique Cardoso.

Na União Européia, a Inglaterra lidera as pressões para derrubar as medidas protencionistas, e quer acelerar a integração das economias dos blocos regionais. Diverge de países como a França, por exemplo, que no momento não abre mão dos subsídios agrícolas. Nesse ponto, ressaltou Blair, Brasil e Inglaterra têm interesses comuns. ''Ambos defendemos uma nova rodada de negociações para ampliar o comércio mundial'', declarou.

Blair disse que a proposta da União Européia de criar uma área de livre comércio com o Mercosul é um ''passo significativo'' para a liberalização do comércio entre os dois blocos. A proposta prevê a redução progressiva de tarifas externas de pelo menos 90% das mercadorias negociadas nas duas regiões, dentro da classificação de área de livre comércio no contexto da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Entraves - Os países do Mercosul terão até outubro para apresentar uma contra-proposta à União Européia. A intenção do Brasil e seus vizinhos, contudo, é incluir a redução de barreiras não-tarifárias, como cotas de importação e cláusulas fitossanitárias, consideradas um dos principais entraves para os produtos agrícolas dos países em desenvolvimento na Europa.

Blair também veio estimular os ingleses a fazerem negócios no Brasil. O Reino Unido, que já foi o principal parceiro comercial do país no século 19, hoje ocupa apenas a décima-quarta colocação entre os países que mais investem na economia brasileira, com US$ 97 milhões aplicados no primeiro semestre. Está atrás de países como Bélgica e Holanda e bem longe, por exemplo, do US$ 1,9 bilhão investido pelos espanhóis.

O principal interesse dos ingleses é o setor de infra-estrutura, principalmente petróleo e energia. Empresas britânicas como British Petroleum e British Gas, por exemplo, pensam em expandir seus negócios no país, com a liberalização definitiva do setor de combustíveis em janeiro de 2002. A British Gas, proprietária de 8% do gasoduto Brasil-Bolívia, já investiu US$ 1 bilhão no negócio.

Acordo - Brasil e Inglaterra assinaram ontem também um documento recheado de boas intenções e idéias nem tão novas. O Plano de Ação Conjunta Brasil-Reino Unido, acertado em 1997, ganhou tópicos voltados para a questão social e a palavra dos chefes de Estado dos dois países de que o que está escrito será levado a diante.

No papel, Tony Blair e Fernando Henrique se comprometeram a incrementar as relações comerciais entre os dois países. Ao mesmo tempo, esperam defender os direitos humanos, combater o tráfico de drogas e a pobreza.

O acordo não prevê investimentos, apenas estimula a cooperação. ''Essa declaração fica muito mais no plano das intenções. Não temos aí nenhuma medida que possa consolidar uma base de desenvolvimento'', avalia o professor Franklin Trein, coordenador do Programa de Estudos Europeus da UFRJ.

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