Sessenta e quatro metros quadrados juntarão, no mesmo lado da quadra de vôlei de praia, duas jogadoras que passaram boa parte da carreira dividindo suas qualidades no esporte com o rótulo de musas. Leila e Ana Paula se reuniram, já trintonas, em busca de novo desafio: vencer na praia. Querem repetir o sucesso que tiveram, juntas, na quadra. Surgiram na mesma época, o início dos anos 90, no mesmo time (o Minas), pelo qual foram campeãs nacionais em 1992. E colecionam como principal título o bronze olímpico em Atlanta-1996. Agora, na praia, lutam para despontar. Sem espaço para musas.
Leila retorna à areia depois de quase dois anos na quadra. Antes, ela tivera uma experiência malsucedida no vôlei de praia. Voltou à quadra na esperança de ir aos Jogos Olímpicos de Atenas, no ano passado. Não conseguiu. Disputou mais uma temporada pelo Rexona, sendo vice-campeã da Superliga.
- Não me imaginava voltando para a praia. Mas o universo conspirou para isso. Fico perto do Emanuel, e isso facilita. Fisicamente, o atleta tem de dosar os treinos depois dos 30 anos. Na quadra, sentia o impacto. Competia e jogava com dores. Com isso, você perde o prazer. Hoje (ontem) é meu segundo treino na areia e meu joelho nem inchou - conta Leila, que, em 2003, quando retomou a carreira na quadra, dissera que não voltaria à areia.
Aos 34 anos, ela mudou de opinião. Foi convencida por Ana Paula, que há tempos sonhava dividir a quadra com a amiga.
- Temos uma história, já moramos juntas, começamos na mesma época na Seleção juvenil. Já brigamos, isso lá nos nossos 19 anos. Quando ela veio para a praia pela primeira vez, disse que ainda jogaria comigo - lembra Ana Paula, de 33 anos.
Pois foi o que aconteceu. A dupla será treinada pela técnica Letícia Pessoa, mentora de Adriana Behar e Shelda, detentoras de duas pratas olímpicas.
- Sempre trabalho para ganhar. A Ana já é uma grande jogadora da praia. A Leila vai se preparar - diz a técnica.
Leila está otimista. Destaca a importância do namorado, Emanuel, campeão olímpico na areia em Atenas-2004.
- O Emanuel é meu psicólogo, meu amigo, não falamos apenas de vôlei. Ele me ajuda muito - afirma Leila, explicando as mudanças que terá na areia: - Na quadra, são seis, sete horas de treino todo dia. Na praia, a intensidade é até maior, mas o período de treinamento é menor. Isso provoca um desgaste menor. Estou em paz, em casa - completa.
Ana Paula reconhece:
- A Leila sempre teve a cabeça na praia. Ela saiu da areia com o gostinho de que não fez tudo o que podia - diz Ana Paula, que se junta a Leila para chegar a Pequim-2008.
Na passagem anterior pela praia, Leila enfrentou a morte da mãe, de câncer:
- Antes, quando joguei na praia, estava num momento conturbado na minha vida pessoal. As pessoas tinham a imagem de mim como uma atleta vencedora. E não consegui isso na praia. Mas o pessoal que estava comigo naquela época, a Sandra, o Alemão (o técnico Marcelo Del Negro), foram muito importantes. Hoje, volto à praia e estou tranqüila, amando. Quero qualidade de vida.