Terça-feira, 31 de Julho de 2001
Botafogo contrata Petkovic

Cabeça-de-área xará do rubro-negro é o novo reforço do clube. Agora já são cinco iugoslavos atuando no Brasil

LUIZ MARCELLO FERREIRA

Petkovic se apresenta esta semana ao Botafogo. A notícia, que pode preocupar rubro-negros e animar alvinegros, é verdadeira, mas tem um detalhe importante: o Pet de Caio Martins joga como cabeça-de-área e se chama Dusan - o primeiro nome do ídolo do Flamengo é Dejan. A coincidência pode ser compreendida com facilidade, já que o sobrenome Petkovic, na Iugoslávia, pode ser comparado ao Silva no Brasil.

Dusan Petkovic, 27 anos, 1,89 m e 86 quilos, jogou a última temporada no OFK Belgrado, mas já vestiu as camisas do Mallorca, da Espanha, e do Yokohama Marinos, do Japão. Pela seleção de seu país, disputou oito partidas e marcou um gol, contra a Bósnia-Herzegovina, pela Copa Kirim, este ano, no Japão. Outro detalhe: ele é filho do técnico iugoslavo.

Petkovic foi indicado ao presidente do Conselho Deliberativo do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro, que consultou o técnico Paulo Autuori. Este, por sua vez, procurou um amigo na Iugoslávia e recebeu ótimas referências sobre o quinto iugoslavo a desembarcar no futebol brasileiro nos últimos tempos. Além dos dois Petkovics, já estão por aqui Nicola e Andjelkovic, ambos no Fluminense, e Osmanovic, no Vitória.

Fora de campo, Brasil e Iugoslávia guardam poucas semelhanças. Longe dos trópicos, os conterrâneos dos cinco jogadores vivem no leste europeu sob temperaturas muito baixas. Idiomas, costumes, religiões e extensão territorial - a Iugoslávia é só um pouco maior que o estado do Ceará -, são outros aspectos que diferenciam brasileiros e iugoslavos. Porém, por lá costuma-se dizer que o futebol é bastante semelhante ao daqui.

Show - O sucesso alcançado por Petkovic com as camisas rubro-negras de Vitória e Flamengo sem dúvida incentivou o fluxo migratório.''É muito bom saber que meu trabalho influenciou na chegada de outros iugoslavos'', afirma o Petkovic rubro-negro, que considera ''bom'' seu xará alvinegro. ''Mas ele vai precisar de tempo para se adaptar'', diz.

Para o editor de Esportes do jornal iugoslavo Danas, Milos Nikolic, este intercâmbio é natural. ''Nosso futebol é similar ao do Brasil, de muita técnica. Estamos tentando jogar bem e apresentar um bom espetáculo para o público. Gostamos de um bom futebol. Não frio como o dos alemães. Eles são fortes, mas não têm técnica. Queremos show'', explica.

O goleiro Nicola, recém-contratado pelo Fluminense, acredita que as semelhanças não param por aí. ''Assim como na Iugoslávia, a torcida no Brasil cobra muito de seus jogadores. Já deu para ver que o futebol brasileiro é muito disputado''. O atacante Andjelkovic cita outra semelhança: ''Lá, sempre há campo para jogar. Todo mundo joga na rua. Já vi isso aqui no Rio'', disse.

Transição - Com 10,6 milhões de habitantes - a mesma população do Rio Grande do Sul -, a Iugoslávia, em todos os setores, está se reestruturando após os conflitos no Bálcãs. No futebol, não é diferente. ''É uma questão complicada. Nossa liga está enfraquecida desde a fragmentação da Iugoslávia. São cinco países em vez de um, como antes'', acrescentou Milos Nikolic. ''Tem que jogar muito bem para ir para o oeste europeu. Alguns escolhem o Brasil, talvez pelo fato de todo mundo precisar de uma mudança na carreira. Pode ser também curiosidade''.

O atacante Dejan Osmanovic é outro na legião iugoslava que chegou ao Brasil. Com 28 anos, ele foi contratado pelo Vitória para a disputa do Campeonato Brasileiro e também lembrou do momento de transição que seu país atravessa e por isso não faz boa campanha nas Eliminatórias Européias para a Copa do Mundo. A Iugoslávia está no Grupo 1, com 9 pontos, atrás de Rússia, com 17, Eslovênia, 13, e Suíça, 11. O próximo jogo acontecerá no dia 15 de agosto contra as Ilhas Faroe. Osmanovic já foi convocado cinco vezes para a seleção de seu país.

Aparentemente, outro fator que está atraindo os iugoslavos é o salário pago no Brasil. Segundo os próprios jogadores, apenas os dois grandes clubes - Estrela Vermelha e Partizan - pagam o suficiente para uma vida confortável, o que se resume ao aluguel de um apartamento e a compra de um carro.

Petkovic - No Brasil, poucos entendem o motivo de Petkovic - o rubro-negro - não ser convocado para a seleção iugoslava. Porém, os iugoslavos já encontraram uma explicação para a ausência, já que a boa fase do meia no Flamengo chegou ao conhecimento de todos, até mesmo lá. ''Observei o Petkovic quando ele estava na Europa. Ele é bom, mas não foi o suficiente para o Real Madrid. Não quero dizer que o Flamengo é ruim. A mentalidade do Brasil é parecida com a nossa. Queremos futebol com paixão, com jogadores que joguem pelo coração, e não só pelo dinheiro'', afirma Milos Nikolic.

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