Terça-feira, 31 de Julho de 2001
Zagallo: Fla vai de favorito a incógnita

Treinador se queixa da política de empréstimos de jogadores e prevê dificuldades no Brasileiro e na Copa Mercosul

RICARDO CALAZANS

As conquistas do tricampeonato estadual e da Copa dos Campeões, o bom momento na Mercosul, o entrosamento do time e a iminente contratação de Vampeta deveriam bastar para credenciar o Flamengo como favorito ao Campeonato Brasileiro que começa amanhã. Mas o técnico Zagallo, um otimista por vocação, exibia semblante soturno ontem, na reapresentação do time na Gávea. Ele prevê tempos de dificuldades para o Flamengo, e mostrava ontem mais preocupação com o empréstimo do atacante Leandro Machado ao Internacional do que felicidade com a vinda do volante do Paris Saint-Germain. ''As coisas estão indo por um caminho que eu não gosto'', sentenciou o treinador, que completa 70 anos no próximo dia 9 - tem, portanto, experiência de sobra nesse negócio chamado futebol.

Nas últimas duas semanas, Zagallo ficou sem Gamarra, Leandro Ávila, Maurinho e Leandro Machado. Teme perder ainda mais jogadores - Reinaldo e Adriano estão envolvidos na negociação de Vampeta, que deve ser fechada hoje em Paris, num encontro dos dirigentes do PSG com o supervisor Walter Srour, do Flamengo, e os procuradores Luís Vianna e Gilmar Rinaldi. E, apesar de não questionar a política de recuperação financeira do Flamengo, calcada basicamente no desmonte do time, deixou claro que não concorda um milímetro com ela. ''O Flamengo quer pagar suas dívidas. Correto. Está diminuindo a folha salarial para poder pagar o elenco. Certo. Mas estamos perdendo valores. Nosso grupo está diminuindo'', constatou.

Zagallo aponta uma discrepância entre os jogadores que saíram e os que entraram - os zagueiros Gilmar e Leonardo Valença, o volante Dé e o meia Fábio Augusto. ''Houve mais saídas importantes do que chegadas importantes. Perdemos dois titulares (Leandro Ávila e Gamarra) e não ganhamos nenhum'', reclamou. Por enquanto, o problema está adormecido, mas com a seqüência de jogos no segundo semestre - são pelo menos mais 31 partidas, entre o Mercosul e o Brasileiro, até o início de dezembro - as contusões, expulsões e convocações para a Seleção Brasileira serão inevitáveis. ''Ainda estamos em julho. Não sabemos se o time vai se manter inteiro. Por enquanto está tudo bem. Só enquanto ninguém se machucar.''

Velho problema - O técnico, na verdade, enfrenta o mesmo problema desde o início do ano, quando perdeu, de uma tacada, Athirson, Alex e Denílson. Apesar de não gostar nada dessa contínua redução do elenco, Zagallo tenta manter o otimismo. ''Onde eu estiver metido pode estar certo de que quero ganhar. Desanimado não estarei nunca, se não tinha entregue os pontos quando Athirson, Alex e Denílson saíram'', repetiu. Mas demonstrou cansaço em relação aos atos da diretoria rubro-negra: mesmo sabendo que o time precisa de reforços para compor elenco, não procurou nenhum dirigente para dizer isso, como fez em janeiro. ''Sinceramente, não falei com ninguém. Mas estamos ficando mais fracos. Isso é o óbvio.''

Zagallo teve um exemplo dessa fragilidade em potencial na vitória de sábado passado sobre o San Lorenzo (2 a 1), pela segunda rodada da Copa Mercosul. O zagueiro Fernando sofreu uma luxação no ombro esquerdo e é dúvida para a estréia do Flamengo no Brasileiro, amanhã, contra a Ponte 0 Preta, em Juiz de Fora. ''É o que estou dizendo: o Fernando era reserva do Gamarra. O Gamarra saiu, ele se machucou e fiquei sem ninguém para substitui-lo. E se o Juan for convocado (hoje, para o jogo da Seleção Brasileira contra o Paraguai, dia 15) já ficarei sem minha ex-zaga titular em uma semana'', reclamou. ''E se o Jorginho, que era o reserva do Leandro Ávila, se machucar?''

A vinda de Vampeta comove menos o treinador do que os desfalques recentes. O de Leandro Machado, por exemplo, pegou-o de surpresa ontem. ''Fui comunicado agora há pouco de que ele estava indo para o Internacional. Fiquei na minha. É problema do clube'', disse, tentando demonstrar indiferença. Não conseguiu. Logo em seguida, bateu na mesma tecla, como que dando um aviso aos dirigentes: ''Agora, as dificuldades vão aumentar.''

Leandro Machado permanecerá no Inter até dezembro, com os salários pagos pelo clube gaúcho - o Flamengo se comprometeu a quitar os atrasados assim que puder. Provavelmente, com os US$ 5 milhões que espera receber pelas vendas de Adriano e Reinaldo. A diretoria informou que o dinheiro é suficiente para saldar a dívida de R$ 10 milhões que o clube tem com os jogadores.

Vampeta - Ontem, Zagallo mostrava apenas comedimento quanto à contratação de Vampeta. ''Se vier, tudo bem'', limitou-se a comentar. Já o atacante Edílson, velho companheiro de Vampeta nos tempos de Corinthians, não vê a hora de reencontrá-lo. ''Conversei com ele ontem, por telefone, e ele está animadão para vir para o Flamengo. Disse que na quarta ou na quinta-feira estará aqui'', contou o atacante. Edílson terá que torcer ainda para a concordância de Reinaldo e Adriano, que até ontem não estavam decididos a entrar no negócio. ''Ainda não há nada certo quanto a salários nem ao clube onde jogarei'', disse Adriano, que seria repassado pelo Inter de Milão (dono do passe de Vampeta com o PSG) a outro clube europeu. Reinaldo permaneceria no Flamengo até a Libertadores do próximo ano, quando então se transferiria para o PSG.

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