A morte do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Yasser Arafat - fim de capítulo de 40 anos na história do conflito entre palestinos e israelenses -, abre nova etapa nos relacionamentos na região. Qual, só o tempo será capaz de responder. A intransigência sempre foi uma barreira espessa de cerração que impediu ver, entre as alternativas imaginadas em hora de boa reflexão pelas lideranças dos dois lados, se existia mesmo uma possibilidade do tão decantado caminho da paz. Ou se ainda existe.
Ao assinar os acordos de Oslo, em 1993, Arafat, Yitzak Rabin e Shimon Peres tangenciaram o que parecia o início do fim da violência no cotidiano da região. Chegaram mesmo a dividir o Prêmio Nobel da Paz no ano seguinte, quando ainda era possível sonhar que a coexistência entre Israel e um futuro Estado palestino, independente e autodeterminado, era uma questão de acertos.
Ainda não foi daquela vez. Em 2000, a teimosia, a memória das divergências, das batalhas cotidianas e as diferenças em relação ao destino de Jerusalém e à volta dos refugiados palestinos impediram a assinatura de um acordo final em Camp David. Uma brilhante oportunidade perdida. O mundo vivia sob o signo da pax americana de Bill Clinton, que abrira um parêntese entre a disposição guerreira dos dois Bush, pai e filho.
A ONU ainda tentou patrocinar junto à União Européia, Estados Unidos e Rússia a solução zen-budista do ''Mapa do Caminho'', um plano de paz que apontava para a criação do Estado Palestino em 2005. Mas o mundo já era outro. Vivia o day-after do 11 de setembro. Chamado de ''mestre do terror'' pelos israelenses e acusado de ter perdido o controle sobre o terrorismo praticado por palestinos, Arafat viu-se doente e confinado aos escombros de seu quartel-general em Ramallah, onde passou os últimos dois anos e meio. A paz havia entrado pelo tubo das águas servidas da violência.
E agora, depois da morte de Arafat, o que vem? Tudo é possível. Inclusive, a paz.
Ou, talvez, uma onda de ataques suicidas contra alvos israelenses, enquanto não surge a nova liderança capaz de chamar os ânimos à razão.
Um governo de transição já divide o espólio de responsabilidades de Arafat. Mahmoud Abbas, moderado - participou juntamente com Arafat das negociações em Oslo -, assume a presidência e secretário-geral da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Abbas tem defendido o fim dos ataques de militantes e a retomada do processo de paz. Também moderado, o atual presidente do Parlamento, Rawhi Fatuh, dirigirá a Autoridade Nacional Palestina (ANP) até a realização de eleições, previstas para daqui a 60 dias. E há o contrapeso da influência e liderança radical de Farouk Kaddoumi, um linha-dura que acredita na guerra como solução final. Vai chefiar a Fatah, facção política da OLP.
Pode ser aí a casa do perigo. A morte de Arafat, visto por Bush e pelo governo de Israel como o maior obstáculo ao fim dos conflitos na região, abre uma perspectiva de ouro para a paz. No lado palestino, tudo vai depender da habilidade e da precisão com que os líderes interinos consigam trabalhar os ânimos da população, exacerbados pela emoção da perda do líder carismático. Têm de ter pulso, autoridade e disposição para conter os extremismos que levam à violência. No lado de Israel, a paz pode ser apressada se Ariel Sharon conseguir interromper a construção de assentamentos de colonos judeus em terras ocupadas na Cisjordânia, desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
São desafios imensos. De boa vontade e ação. A convivência com Israel tem que estar na pauta de trabalhos do governo palestino de transição. É a prioridade a ser abonada pela autoridade moral da ONU, e ter sua efetividade assegurada pelo governo dos Estados Unidos e pelos líderes da Comunidade Européia. O resto é promessa de violência, que passa ao largo do caminho da paz.
O que faltar em ação e boa-vontade, pode ser completado pela ONU, pelo presidente dos Estados Unidos e líderes da União Européia, a quem compete assegurar a transição do governo.