Três meses foram suficientes para virar contra a representação nacional a aplicação da verba destinada a escritórios parlamentares nos estados. Desde maio os deputados embolsam a cada mês de R$ 7 mil por fora para cobrir contratação de pessoal e despesas de transporte em escritórios fora da Brasília. O festival da Câmara em Brasília, em vez de extinto, se estendeu às eufemísticas bases nos estados.
A opinião pública não engole o custo da representação política - a parte fixa (com status de salário, quando devia ser jeton), acrescida de cotas específicas para Brasília - assim relacionada: R$ 7 mil de remuneração, mais R$ 800 para telefonemas, mais R$ 2 mil para despesas de correios e agora R$ 7 mil para transporte e escritório no estado que o deputado representa.
Era previsível, e aconteceu. A ressalva de que a importância só poderia ser utilizada em despesas ''diretamente relacionadas com o exercício do mandato parlamentar'' não adiantou. Com menos de três meses, as exceções excedem as boas intenções: a obrigatoriedade de justificar despesas com nota fiscal e carimbo do prestador de serviço foi esquecida. Longe de Brasília, vale tudo. Deputado pagou o aluguel de empresa que tem o seu sobrenome, mas ele saiu pela tangente. A empresa não é dele mas de parentes. Tudo em família.
Despesas com a confecção de faixas para o dia das mães foram rejeitadas, mas até quando a moral vai resistir aos costumes? A nota do transporte de jogadores de futebol (ou de fiéis de uma igreja, o deputado não se lembra) foi paga porque gasto de transporte vale. Não valeu, porém, no caso da despesa de R$ 5 mil com lubrificante Bardahl, que constou da nota como perfume. Foi devolvida.
A verificação é feita 20 funcionários exclusivos, no subsolo do Anexo IV da Câmara mas com o tempo esses mosqueteiros da ética serão vencidos pelo corporativismo para o qual são legítimas as vantagens que tornam suportável a vida parlamentar em Brasília. Quando a Câmara funcionava no Rio, as bases políticas estavam nos mesmos lugares e todos se sentiam bem pagos.
Não é impertinência, portanto, lembrar que a quantia é pequena para o tamanho do privilégio que vai cada vez mais manchando o mandato popular. O Brasil é outro, embora não deva a mudança aos parlamentares, até pelo contrário.
Recomenda-se, porém, prudência na expansão dos maus hábitos. Os brasileiros estão afiando o direito de voto com disposição de melhorar os critérios. Assim como têm tido nos casos de falta de decoro, são capazes de excluir nas urnas os que fazem do mandato blindagem para estabelecer privilégio por baixo da retórica. Há fumaça no ar.