Terça-feira, 31 de Julho de 2001
Retorno a Camp David

Entre um atentado (ou represália) e outro, um grupo radical israelense tentou reeditar, na Esplanada das Mesquitas, a provocação de setembro do ano passado com a qual Ariel Sharon acendeu o estopim da segunda intifada palestina e acabou se elegendo primeiro-ministro israelense. Todo ato extremado, principalmente no Oriente Médio, onde as provocações se sucedem decênio após decênio, destina-se a interromper qualquer processo de paz. Quando os extremistas assumem o primeiro plano a razão se retira para o último plano.

Desde que Yasser Arafat recusou, ainda em 2000, em Camp David, antes da eleição que conduziu Sharon ao poder, a proposta de Ehud Barak e Bill Clinton, prevendo a entrega aos palestinos de 95% da Cisjordânia e a instalação de duas capitais em Jerusalém, tudo ficou congelado politicamente no Oriente Médio, salvo a violência.

De lá para cá a roda da História se movimentou para trás. A vitória esmagadora de Sharon na eleição deu o tom: cada ofensiva palestina corresponde à retaliação israelense, sem que saiba de onde poderá partir iniciativa que retome ainda que timidamente o processo de paz.

Em teoria qualquer conversação deve partir do pressuposto de que ambas as partes estejam dispostas a fazer concessões.Não é o que se divisa no horizonte. A questão das colônias em território palestino continua petrificada, motivando os principais focos de tensão e atritos, agora aguçados com o choque no Muro das Lamentações. Desde a ascensão de Sharon, a posição israelense endureceu: nada de retirada dos colonos dos assentamentos, nada de divisão de Jerusalém (a ''capital indivisível'' do sonho dos direitistas), nada de concessões além das que já estão oficializadas. O novo governo aceita apenas acordos assinados - os de Oslo, de 1993, de Wye Plantation, de 1998, e de Sharm el-Sheik, de 1999. Sharon só entrega 45% da Cisjordânia - metade do que Barak havia proposto.

O atual contexto histórico se presta ao paradoxo. Enquanto os palestinos eram chamados a negociar sem meios de pressão, os israelenses continuavam a implantar colônias, mesmo durante o governo trabalhista. Mas quando os palestinos usaram a arma de pressão da intifada, obtiveram algumas concessões, mas geraram o agravamento do sentimento de insegurança israelense.

De fato, em Camp David a última tentativa palpável de entendimento se escoou pelo ralo. A partir daí prevaleceu a linguagem da intifada e dos tanques. Com exceção dos meninos instigados a jogar pedras e dos extremistas decididos a apostar no caos, há uma insegurança se infiltrando (antes que seja tarde demais) na mentalidade da opinião pública em função da violência. Para a atual geração de palestinos a experiência histórica cessou de ser sucessão de derrotas árabes, e ela se sente disposta a enfrentar o ocupante. Mas o primeiro-ministro Sharon não abre mão de sua exigência preliminar de cessação imediata de violência nos territórios.

Assim sendo, o processo de paz não sai da estaca zero, para onde voltou desde o fracasso de Camp David. No entanto, nada seria mais bem-vindo do que o retorno a Camp David, local onde os palestinos obtiveram as maiores concessões de toda sua História - e as recusaram.

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