Terça-feira, 31 de Julho de 2001
Desvio de Linha

Quando privatizou o serviço ferroviário que atende à Região Metropolitana, o governo do Estado do Rio assumiu o compromisso de reformar 48 locomotivas da antiga Flumitrens. O consórcio privado que venceu a licitação confiou na palavra das autoridades e nas bases do contrato, firmado em 1998. Ao assumir a concessão pública, a Supervia imediatamente pôs em andamento planos de expansão e obras de melhoria. Graças a um aporte de capital de R$ 150 milhões, reformou 31 das 89 estações existentes. Investiu em equipamento e recursos humanos e conseguiu aumentar o número de passageiros transportados de 150 mil/dia para 308 mil/dia. Não alcançou, porém, o volume ideal de 500 mil passageiros/dia - que significaria o ponto de equilíbrio entre despesa e receita - por um motivo grave: o governo estadual resiste a cumprir sua parte contratual. Entregou apenas 10 unidades reformadas, contra a previsão de 48 unidades até janeiro do ano passado.

O resultado é desastroso. Com um rombo mensal de R$ 5 milhões, a Supervia - formada por bancos nacionais, fundos estrangeiros e o grupo espanhol Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles - suspendeu os investimentos e entrou na Justiça com protesto contra o Estado face aos prejuízos causados pelo descumprimento no contrato de concessão. Pelo cronograma financeiro original, a empresa - que, antes da privatização, se debatia em déficit mensal de R$ 9 milhões - sairia do vermelho em 2001, como reflexo dos novos trens que permitiriam a expansão da malha ferroviária e a movimentação dos 500 mil passageiros/dia. As metas, obviamente, se frustraram. E, além da suspensão no desembolso de R$ 80 milhões previsto para este ano, adotou-se rigoroso corte de pessoal, com a demissão de 400 funcionários e de três dos oito diretores. Por economia, a empresa também decidiu se mudar do moderno edifício do Teleporto, na Cidade Nova, para o antigo prédio da Central do Brasil.

Quem mais sofre com as medidas de contenção de despesas são os usuários do serviço. Todos reconhecem que houve melhora sensível do serviço após a privatização. Hoje, estações e vagões são limpos e os índices de pontualidade são merecedores de elogios, principalmente se comparados aos do passado. A principal reivindicação agora é a instalação de ar-condicionado nos vagões. Logo, um abismo separa o estado de abandono de ontem do padrão de qualidade almejado pela Supervia. Só quem não vê é o governo estadual, que, aparentemente, elegeu outras prioridades que não o transporte ferroviário. Não entregou os trens prometidos e não efetuou o reembolso de 80% do seguro patrimonial da concessionária, estimado em R$ 2,4 milhões por ano. Em meio ao impasse, o consórcio não se atreve a utilizar o empréstimo de R$ 360 milhões já aprovado pela direção do BNDES. ''Não vamos nos endividar sem ter recebido os trens'', diz o presidente da Supervia, Paulo Bello.

O que está acontecendo com a Supervia é um absurdo. Não se pense que está em jogo apenas a viabilidade de um grupo empresarial privado. Trata-se da alternativa de transporte moderno, rápido e barato para meio milhão de pessoas. O episódio dos trens metropolitanos no Rio mostra que privatizar é fácil. Difícil é dar seqüência à privatização.

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