Domingo, 26 de Agosto de 2001
Crise bate à porta das centrais sindicais

Nem governo sabe quantos sindicatos e sindicalizados há

NICE DE PAULA

O universo sindical brasileiro é um mundo desconhecido. Nem o Ministério do Trabalho sabe dizer ao certo quantos sindicatos existem no país e muito menos o número de empregados que são sindicalizados. O dinheiro que o setor movimenta é outra incógnita. São recursos privados geridos e fiscalizados pelos próprios sindicatos e que, ao que tudo indica, começam a escassear. Pelo menos é o que dizem representantes das duas maiores centrais sindicais do país: a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical.

Na semana passada, a CUT demitiu parte dos seus funcionários no Rio e em Minas Gerais, alegando dificuldades financeiras. ''A CUT vive exclusivamente da contribuição dos seus sindicatos filiados, que estão sofrendo com o desemprego e o arrocho'', diz João Felício, presidente nacional da CUT. Na Força Sindical, a crise não deu sinais exteriores, mas também há queixas de inadimplência. ''Cerca de 900 dos nossos sindicatos estão em atraso. Chegamos a montar uma equipe só para fazer a cobrança'', conta Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força. Já na Social Democracia Sindical (SDS), novata entre as grandes centrais, o assunto não é crise. ''Temos uma estrutura enxuta, fácil de ser mantida'', explica Enilson Simões de Moura, o Alemão, que alardeava a filiação da Confederação dos Servidores Públicos do Brasil.

Praia - Com essa essa adesão - mais 700 sindicatos e 4 milhões de trabalhadores - a SDS invadiu a praia do funcionalismo que pertencia à CUT e anunciou ter ampliado seu universo de representação para 14 milhões de pessoas. É número igual ao contabilizado pela Força Sindical. Somados aos outros 21 milhões da base da CUT, apontam para a existência de 49 milhões de trabalhadores só entre os sindicatos das três centrais.

Na prática, porém, esses números não passam de estimativas, tão pouco confiáveis que será feito um censo sindical para dar credibilidade aos dados. O projeto, aprovado pelo Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat), será realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A situação não é diferente quando o assunto são as finanças. As centrais vivem das contribuições pagas pelos sindicatos e só têm que prestar contas ao governo dos recursos públicos que recebem para aplicar em projetos sociais. A Força Sindical informou ao Jornal do Brasil que possui um orçamento de R$ 1,8 milhão para esse ano e nem um centavo de patrimônio próprio. ''Usamos muitos funcionários e instalações pertencentes aos sindicatos'', explica Paulinho. Ainda assim, o número parece modesto para a central que organizou uma festa de R$ 2 milhões para comemorar o 1° de Maio. ''Foi tudo pago por empresários e patrocinadores do evento'', diz João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força.

Projetos - A relação de projetos desenvolvidos pela central em parceria com o governo também faz o número do orçamento parecer inconsistente. Na maioria desses projetos, a central participa com uma parte dos recursos, em geral 20%. É a chamada contrapartida. Nas informações sobre essas parcerias para este ano que o Jornal do Brasil obteve com as centrais e alguns ministérios, o valor da contrapartida da Força chega a R$ 10,4 milhões, mais de cinco vezes o orçamento de R$ 1,8 milhão. Os números não fecham.

A SDS informou ter orçamento de R$ 4 milhões, dos quais 70% seriam arrecadados em dinheiro e o restante recebidos dos sindicatos na forma de empréstimo de pessoal e equipamentos. Nos projetos de parceria com o governo, sua participação seria de R$ 3,7 milhões, o que, numa conta simples, reduz o orçamento a R$ 300 mil. Já a CUT, que aparece com o menor número de parcerias, foi a central que informou o maior orçamento. ''Nossos dados são transparentes e podem ser comprovados por documentos. A arrecadação total do sistema CUT será de R$ 32 milhões'', diz Felício.

Para manter as centrais e suas próprias estruturas, os sindicatos contam com a contribuição obrigatória de todos os trabalhadores do setor privado. É um desconto anual de um dia de salário de trabalhadores sindicalizados ou não, responsável por uma arrecadação de R$ 550 milhões este ano e R$ 507 milhões em 2000. Por ser obrigatória, ela é fiscalizada pelo Ministério do Trabalho. Mas há outras fontes de receita, como mensalidades e outras taxas, cujo controle é restrito à direção dos sindicatos.

O raio X das centrais

Anterior Próxima

ENVIAR MATÉRIA| IMPRIMIR                                                                                                   

E-mails e telefones :: EXPEDIENTE
Copyright© 1995, 2001, Jornal do Brasil, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet

Envie esta notícia para um amigo

PÁGINA DOIS
Amador, mas supercraque
Uma das façanhas do pesquisador foi dar lição de futebol belga na Federação Belga

C O L U N A S
Economia.net

Cartas dos Leitores