|
Liberação de tarifa acirra guerra aérea
Maior competição deve sepultar empresas que já estavam em dificuldades financeiras. Governo avisa que não vai socorrer
BRASÍLIA -
As empresas do setor de aviação estão vivendo a maior crise de sua história. E o governo decidiu não dar qualquer tipo de ajuda financeira para que se reequilibrem. A situação é mais grave na Varig, com dívidas vencidas de mais de R$ 3 bilhões, e na Transbrasil, que teve um avião arrestado nesta semana. Nem mesmo os seguidos atrasos dos pagamentos a fornecedores, cometidos pela Varig, serviram de argumento para convencer a equipe econômica. ''Nós não vamos gastar um tostão do Tesouro. As empresas que procurem o mercado'', informou um funcionário do alto escalão do governo.
A Vasp, depois de perder oito aviões por falta de pagamento, de refinanciar toda sua dívida em impostos com a União, e de fechar todas as linhas de vôos internacionais, garante que está operando com lucro. Mas a situação não é tão tranqüila assim: fontes do setor afirmam que o mercado doméstico não comporta o número de empresas existentes hoje e novas empresas, a exemplo da Gol, estão entrando no mercado com tarifas mais baixas.
Subsídios - ''Só 6% da população viaja de avião'', reclama a fonte. Segundo o Departamento de Aviação Civil (DAC), o número de passagens vendidas em 1999 - 22,2 milhões - foi inferior ao de 1998: 22,5 milhões. No ano passado, houve recuperação e a quantidade de bilhetes vendidos subiu para 24,2 milhões, mas ainda é insuficiente para manter, em todos os vôos, taxa de ocupação que cubra os custos operacionais das empresas. Segundo a mesma fonte, nos Estados Unidos, o número de passagens aéreas vendidas por ano é três vezes superior à população. No Brasil, corresponde a apenas um terço dos 160 milhões de habitantes.
Vários fatores alimentam a crise no setor: má administração, desperdício, uso de aviões tecnologicamente ultrapassados - e que consomem muito combustível - e a grande concentração de renda no país. Para ter mercado para todas as empresas, afirma a fonte, é preciso fazer distribuição de rendas para que mais pessoas possam pagar uma viagem de avião. Parte significativa dos passageiros viaja a negócios, com passagens pagas por empresas. Um representante de uma grande empresa reclama ainda da falta de subsídios no Brasil. Segundo ele, os Estados Unidos subsidiam o combustível e os juros para compra de novos aviões. O governo lembra que duas das grandes empresas, a TAM e a Gol, estão com saúde financeira, embora estejam no mesmo ambiente das suas concorrentes. Na visão do governo, a situação de algumas das empresas mais antigas, como a Transbrasil, é de insolvência. E se depender do dinheiro público, elas vão à falência, dando lugar a novas empresas, mais modernas e eficientes.
A liberação dos preços das passagens aéreas, desde sexta-feira, pode ser o golpe de misericórdia em empresas em situação pré-falimentar. O setor se sustentou por muito tempo no sistema de preços controlados e nenhuma concorrência. As tarifas altas encobriam a ineficiência das empresas. Agora, o espaço está aberto para que novas empresas briguem no mercado ofertando passagens mais baratas. E quem tiver custo alto e não conseguir reduzir tarifas vai perder mercado.
|